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Não se esqueça dos clips

Quantas escolhas temos feito priorizando o estar com os filhos ? Temos agendado, na lista de nossos compromissos, encontros com estas pessoas que são verdadeiramente importantes ? A qualidade e quantidade de tempo dedicado , vão conformando a classe dos vínculos , que se formam quando existe um verdadeiro convívio, uma relação face a face, uma disponibilidade e entrega sentidas. Essa prática faz nascer pares educativos que são também afetivos e formativos do caráter.

Por Cristina Coronha

18/12/2017 às 10h38 - Atualizada 18/12/2017 às 10h38

Semana passada, um adolescente de 14 anos fez um comentário sobre seu pai durante o trabalho psicopedagógico. Diante do valor de suas palavras e de tanta sabedoria, pedi que registrasse a experiência a fim de manter a pureza da manifestação. Ele permitiu a divulgação:

“Tinha prova de recuperação naquele dia e estava muito preocupado e ansioso. Quando olhei no celular, vi que havia recebido uma mensagem do meu pai. Nessa hora pensei: “é bronca” e demorei a visualizar, porque estava com medo. Mas criei coragem e visualizei. Foi aí que vi que não era bronca e sim ele dizia que confiava em mim, na minha capacidade, que sabia que podia ir bem na prova e que estava do meu lado para o que der e vier; depois falou que me amava. Essas palavras criaram quase que uma obrigação em mim de não decepcioná-lo e me deu esperança, responsabilidade e força na minha capacidade… eu fui bem na prova.”

Quando falamos de educação referimo-nos a algo atemporal e de interesse geral, afinal, todos somos docentes ou assumimos, em alguns momentos, essa função. Conta, sempre, com a figura de quem ensina e outra de quem aprende, formando um par educativo, unidos, tal qual clips, para um determinado fim.

Os pares educativos formados durante a infância são referências do mundo para a criança. Ela precisa estar sempre acompanhada por um adulto, já que carece de conhecimentos e defesas. Seu mecanismo mental é surpreendente: observa tudo e retém na memória todos os elementos captados sem critério algum. Depois a imaginação usa essas imagens, colocando-as em ação nas brincadeiras. A faculdade de imaginar tem a função de proteger dos rigores da realidade. A criança é receptora e expectadora passiva de todos os estímulos, sensações, emoções, palavras que recebe/observa. Poderíamos considerá-la como um baú que vai armazenando em seu interior todo o conteúdo externo sem seleção.

Na adolescência, surgem os primeiros ensaios da razão, da reflexão, do pensar… As faculdades da inteligência iniciam a sua magnífica engrenagem. Agora não contam mais com a presença dos maiores para resolver as questões que se apresentam frente a seus olhos e é ai que lançam mão dos elementos que foram colocados ao longo da infância, dentro desse baú. Lamentavelmente muitos se deparam com tantas mentiras, tantos enganos, tantas promessas ocas…E o comportamento assume contornos de rebeldia … E se vê perdido, inseguro. Porém, felizmente, muitos outros, encontram em suas reservas morais (baú) muito alento, exemplos, verdades, palavras de incentivo e inspiração para seguir destinos retos com perspectivas de sucesso e felicidade .

É possível dimensionar a responsabilidade do docente para a formação do caráter, que é a fisiomia da alma.

Educar para a vida é considerar a qualidade desse par , incluindo um elemento a mais, indispensável a sua formação : o afeto. Afeto é o elemento fixador das relações, elemento, esse, que imprimi tolerância compreensiva e generosidade recíproca.

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O par educativo/afetivo se constitui a partir de uma relação face a face, de verdadeiro convívio, fazendo nascer sadios e responsáveis modelos, exemplos, referências . As palavras seguem ecoando no interno dos demais, levamos ensinamento e servindo de defesa , principalmente quando são coerentes, ou seja, da mesma natureza que os pensamentos e ações .

Recordo, com emoção de gratidão, das vezes em que freiei atitudes juvenis por lembrar do ambiente familiar e não querer decepcionar meu pai. Eu não tinha consciência clara acerca do certo e errado, mas a consciência de meu pai estava em mim , “carimbada” na forma de sentimento ( no meu baú), me fazendo escolher o melhor caminho. O afeto estava presente ali, no exemplo formativo, regado de amor, impresso em mim.

O meu comportamento ético diante da vida esteve diretamente vinculado ao conteúdo moral dado na infância .

Educar para a vida é trabalhar para unir essas porções de vida , tal qual clips, capaz de reunir, conservar, dar suporte, proteger, selecionar , fixando o melhor em termos de ambiente, aspirações, propósitos, feitos, estímulos naturais e positivos e tempo dedicado ao outro .

Para que esse trabalho cumpra a elevada função a que foi destinado, precisa ser fixado com a parte de amor consciente que é o afeto, já que é ele quem dá cumprimento e perenidade a qualquer obra. Assim, a esse clips precisamos anexar um grande laço de fita, representando o sentimento que acalenta toda a ação educativa de valor.

“…As palavras de incentivo do meu pai criaram uma obrigação de fazer o melhor possível na prova, mas isso não foi imposto por ele, eu é que senti um estímulo e uma obrigação de fazer o melhor”, completou aquele adolescente.

O clips é um símbolo, para a recordação.

Cristina Coronha

Cristina Coronha

Neuropsicopedagoga, Psicopedagogia (UFRJ), Especialista em Educação Infantil e Gestão Social (UFJF), graduada em Pedagoga (UFF). Professora dos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Psicopedagoga Clínica, Orientadora Vocacional e Educacional, Palestrante, Consultora Educacional para o Desenvolvimento de Valores e Talentos. Escritora de artigos em jornais e livros, Membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia-ABPp,e e da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia. Criadora do projeto Articulação em escolas de Minas Gerais. Docente da Fundação Logosófica do Brasil. Professora convidada do Polo Interdisciplinar de Gerações da UFJF. Mediadora do PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental pelo The International Center for the Enhancement of Learning Potential Israel.

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