Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): conhecer para ajudar a (e) ser feliz

Acredito que todos vivemos a realidade de ter por perto uma criança ou jovem com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o tão falado TDAH. Ele tem sido o “responsável“ por danos na escola, na vida de relação e pessoal. O que sabemos sobre ele?Como temos atuado ? Que conhecimentos e procedimentos os docentes (pais e professores) precisam adquirir para favorecer o desenvolvimento pedagógico, individual e social do portador de TDAH? Este é o primeiro de uma série de cinco artigos sobre este tema. Teremos convidados, especialistas em diferentes áreas, que irão esclarecer e colaborar para aumentar o saber, para poder ajudar a ser feliz, e ser feliz.

Por Cristina Coronha

02/01/2018 às 18h55 - Atualizada 02/01/2018 às 19h10

Tempo, bem mais precioso da contemporaneidade, um valioso capital, humano. Curiosamente corremos contra ele, ao invés de tê-lo como nosso aliado na vida. Nessa era da produtividade (teoria de Alvin Toffler sobre as ondas de mudança) o tempo não é mais amigo, ele é o vilão de rouba energia, desgasta relações, desamarra laços, acumula tarefas,gera transtornos psíquicos,nos faz correr e correr sem, muitas vezes, sabermos o porquê; é autor responsável e justificável de nossas ausências com a família, do não cumprimento de metas ou propósitos, da falta de atenção e da terceirização dos cuidados com os filhos,causa tão cara.

Deixamos para traz velhos hábitos como o de olhar no olho, sentar e sentir e ouvir as emoções das conquistas, das dúvidas e dos fracassos do outro, o ensinar com palavras e com o exemplo – maior ensinamento- o esperar com paciência inteligente o tempo do entendimento aflorar sem desistir no meio do caminho, o tocar a alma,unir nossas almas, acompanhar processos…  Hoje meros e longínquos “sonhos de consumo”.

Crianças e jovens são os expectadores mais afetados com essa modernidade líquida (teoria de ZygmuntBauman) que torna normal para a época o que nem sempre é normal para a vida, como ensina González Pecotche.

Dominar o tempo é um desejo e uma conquista que precisa tornar-se realidade, principalmente quando convivemos com um portador do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade -TDAH- ,um transtorno neurobiológico que gera pequenas alterações na região frontal do cérebro. Sua etiologia tem forte influência genética e é reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno que aparece na infância e costuma acompanhar o indivíduo por toda a sua vida, com graus variáveis de desatenção, hiperatividade e impulsividade.

Os portadores de TDAH têm, em geral, uma percepção do tempo diferenciada, baixo desempenho escolar, história de  repetência(s), manifestam falta de habilidade no trato social e nas noções de limite, problemas na organização da sua rotina, agitação, dificuldade de terminar tarefas que foram iniciadas minutos atrás, (…) precisando de um ambiente externo seguro, disciplinado e tolerante para favorecer o ordenamento interno, da sua mente.Tolerância, virtude de grande relevância e que precisa ser cultivada por aqueles que convivem com portadores de TDAH: a tolerância gera compreensão e paciência inteligente porque vem acompanhada do conhecimento e respeito acerca do transtorno e do seu  portador.

O conhecimento é o maior capital que possuímos e sua acumulação deve servir aos altos fins da convivência.O conhecimento existe para ser integrado, situado, transformado, aplicado, incorporado, encontrado em sua verdadeira missão que é a de provocar encontros e mudanças.

Porém, o conhecimento sem o auxílio do afeto, se torna frio e insensível, já que o saber estimula a inteligência, mas é o afeto quem mantém vivo o entusiasmo, sustenta os propósitos que a mente faz, e serve como poderoso auxiliar da razão, como ensina o educador  argentino Gonzalez Pecotche.  A sensibilidade nos faz solidários à dor e à necessidade alheias, fazendo surgir a nossa verdadeira condição de seres humanos.

Cada sujeito portador do TDAH precisa conhecer e entender de si mesmo; merece um esclarecimento e desmistificação de tantas crenças colocadas sobre seus ombros. Precisam identificar, principalmente, seus pontos fortes,sua inteligência, seus talentos, a bela capacidade de percepção holística que, muitas vezes, os tornam  muito mais capazes pela facilidade de captar, mesmo que superficialmente, conteúdos, sensações ou ideias. Precisam, também, de um diagnóstico correto e um tratamento adequado,  o envolvimento e a decisão por parte dos pais, em iniciarem um trabalho em si mesmos concomitante ao acompanhamento multidisciplinar do filho.

Quantos chegam ao meu consultório psicopedagógico com a sensação de estarem perdidos, carregados de impressões negativas e rótulos formados ao longo da história de suas vidas…

Quantos pais e professores, na ausência de conhecimentos acerca das manifestações “impróprias e descolocadas “dos filhos\alunos, utilizam de duros castigos e severas palavras que penetram na alma, potencializando uma baixa autoestima…

 Todos somos educadores, ensinantes, aprendentes e fazedores, do bem ou do mal, da esperança ou da descrença, da possibilidade ou da negação .

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Apesar de o TDAH ser um transtorno mental crônico, multifatorial, de saúde pública, capaz de causar um grande impacto nas relações e no desempenho escolares, temos o caminho da inclusão: movimento social capaz de modificar estruturas e serviços oferecidos, abrindo espaços de visibilidade do potencial e expressão da individualidade, das habilidades, de outras inteligências e aptidões, das diferenças. Inclusão significa, também, reeducação,  para o entendimento e compreensão,  para a aprendizagem e  para a  instrumentalização, para o olhar sobre tudo, começando por si mesmo,convidando ao respeito, à valorização e dever de cada um.

A inclusão tem sido matéria de domínio das políticas públicas e das instituições de ensino que buscam o atendimento de padrões de acessibilidade e cidadania, mas é preciso incluir nessa lista de responsabilidade a família – que partícipe deste movimento complexus, é a peça mais importante – e a equipe multidisciplinar – médicos , psicopedagogos, psicólogos-  numa grande tessitura. Resultados significativos encontramos através  da Reabilitação Cognitiva pelo  método PEI- Programa de Enriquecimento Instrumental- do qual falaremos no próximo artigo.

O mundo atual tem vivido uma expressiva síndrome da urgência;  ela tem devorado nosso tempo e nossas mais nobres aspirações,vem corroendo o caráter com a construção de uma narrativa pouco coerente e nada profunda, além de potencializar, de múltiplas formas, a desatenção, a impulsividade e a hiperatividade.Está em nossas mãos a mudança do curso dessa história.

 

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Cristina Coronha

Cristina Coronha

Neuropsicopedagoga, Psicopedagogia (UFRJ), Especialista em Educação Infantil e Gestão Social (UFJF), graduada em Pedagoga (UFF). Professora dos cursos de pós-graduação em Psicopedagogia e Gestão Escolar. Psicopedagoga Clínica, Orientadora Vocacional e Educacional, Palestrante, Consultora Educacional para o Desenvolvimento de Valores e Talentos. Escritora de artigos em jornais e livros, Membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia-ABPp,e e da Sociedade Brasileira de Neuropsicopedagogia. Criadora do projeto Articulação em escolas de Minas Gerais. Docente da Fundação Logosófica do Brasil. Professora convidada do Polo Interdisciplinar de Gerações da UFJF. Mediadora do PEI – Programa de Enriquecimento Instrumental pelo The International Center for the Enhancement of Learning Potential Israel.

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