Envelhecer não é adoecer

José Anísio Pitico da Silva, assistente social e gerontólogo

Por Tribuna

08/10/2017 às 07h00

No trabalho social com as pessoas idosas da cidade, desde 1988, reconheço que eu também estou envelhecendo. Meu desempenho, por exemplo, no futebol semanal, de toda quarta-feira, já não é o mesmo. Menos correria e mais passes certos. Agora, o que vale mesmo é a resenha, pós-chuveiro, para o encontro na mesa com os colegas que nunca acaba.

Não só no esporte/no futebol que percebo o meu envelhecimento. Em outras áreas também, principalmente no campo emocional. Vejo com mais proximidade e cotidianamente a passagem do tempo. Na minha vida e na de outras pessoas. Avisto, em breve tempo, o momento de minha aposentadoria do serviço público municipal. E, com essa nova realidade, (re)planejo minhas metas e o modo de estar na cena social.

Percebo e leio diariamente nos jornais, vejo na TV e ouço no rádio o que acontece em nossa Juiz de Fora, em nosso estado e em nosso país. Na política, o quadro é desalentador. Mas eu tenho muita esperança em dias melhores e acredito firmemente que é pelo caminho da participação política que a gente transforma o mundo e as pessoas.

Entristece-me reconhecer, no dia a dia, como a nossa vida vale pouco. Estamos por um triz. A expressão de ódio covarde de algumas pessoas nas redes sociais sobre as nossas relações sociais remonta a tempos de barbárie, revigorada em pleno século XXI. Estamos nos desumanizando. Estamos mortos em pleno sol de meio-dia. Como nossos rios, estamos sem oxigênio para amar. Viver tem se tornado muito difícil. Conviver está pior.

Mas eu não desisto. Quero envelhecer. Quero cultivar cada vez mais a amizade e as relações familiares saudáveis. Esses são desejos de que não abro mão nunca. Nesse tempo presente de falta de amor, regular as relações humanas é um grande absurdo, é uma grande violência. No amor e para o amor não há capítulos e incisos a seguir.

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Amar, pelo contrário da sentença judicial de Brasília, sara toda e qualquer ferida humana, independentemente de gênero. E assim devemos caminhar, penso eu, para o nosso envelhecimento, na construção de vínculos amorosos e afetivos. Na perspectiva de uma velhice acompanhada, livre e feliz. Envelhecer não é adoecer, senhor juiz!

Mais um Dia Internacional do Idoso presente no calendário temático de eventos. Mais uma oportunidade ou mais uma nova chance de refletirmos sobre essa nova etapa de nossa vida, que é o envelhecimento, que necessariamente não deve ser visto como o pior estágio do lugar humano. Perdas e ganhos há em todas as estações de nossa vida. O que nos salva mesmo é a compaixão, a solidariedade, a generosidade e o amor, no vai e vem de nossa enfermaria social. Ou no desespero iluminado de Liev Tolstói: “A fé é a força da vida”.

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