Doação de órgãos, o início do milagre

por Gláucio S. de Souza, cirurgião do Serviço de Transplante de Fígado da Santa Casa de Juiz de Fora

Por Tribuna

01/10/2017 às 06h30 - Atualizada 30/09/2017 às 19h38

Vinte e sete de setembro é Dia do Doador de Órgãos. Neste mês, campanhas de conscientização convidam famílias a conversarem sobre o tema. A data remete a Cosme e Damião, médicos que no século IV realizaram um milagre transplantando a perna de um mouro em um capelão, e ele voltou a andar. É mês de transformação, florescer da natureza e renascer da vida. Neste contexto que a campanha atua.
Doar órgãos é uma oportunidade de ressignificar a morte, transformar luto em solidariedade. Cada doador pode ajudar até oito pessoas e, assim, transformar vidas. A doação, por excelência, é espontânea e nobre. Seja pelo próprio doador, nos transplantes inter-vivos, ou pelos familiares, no caso de doações post mortem. Quando ocorre a morte encefálica (ME), o coração ainda bate por algumas horas, e é nesse intervalo que são feitos os testes para comprovar o óbito e possibilitar a doação.

Em 1968, a Universidade Harvard publicou relatório do Comitê Multi-institucional que define morte encefálica quando há coma irresponsivo, ausência de reflexos do tronco encefálico e parada de movimentos respiratórios espontâneos.
Relatos do Papa Pio XII, na década de 1950, reconheciam a irreversibilidade do quadro e o papel dos médicos na confirmação do diagnóstico. Em 1997, o Conselho Federal de Medicina estabeleceu que o diagnóstico de ME será dado após avaliação de dois médicos e um exame complementar que comprove o diagnóstico.

Sob esses critérios, o quadro é irreversível, e a declaração de óbito pode ser emitida, ainda que o coração esteja a bater. Diagnosticada a ME, a doação de órgãos acontece se a família do doador estiver de acordo e assinar a autorização. Todo o processo é regulado pelo Ministério da Saúde, através do MG-Transplantes.

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No primeiro semestre de 2017, a lista de espera no Brasil registrava 32.956 pessoas aguardando um transplante; destas, 1.158 faleceram esperando um órgão. Para atender a demanda é preciso haver doadores. No Brasil, a taxa de doação efetiva foi de 14,9 doadores por milhão de habitantes, enquanto em Minas Gerais esse número foi de 9,8. Os dados sinalizam que há muito a se fazer na construção de um Sistema de Transplantes que atenda as necessidades de nossa população e possa transformar a morte em vida.

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