Banda Uó se apresenta nesta sexta-feira em JF

Em entrevista à Tribuna, Candy Mel, vocalista da banda, aborda sua vivência como mulher trans e os espaços nos quais ainda é preciso chegar

Por Renan Ribeiro

17/08/2017 às 20h33 - Atualizada 18/08/2017 às 16h24

Os primeiros versos da música “Foi você quem trouxe”, da Banda Uó, falam da vivência de um amor, tema que é largamente explorado na música brasileira. “Agora eu sei o que é amar/ eu acredito no amor, sim/ Só sei que já sofri demais/ Mas para mim não acabou não”. Nessa composição, a banda formada por Candy Mel, Mateus Carrilho e Davi Sabbag descreve uma cena possível, uma vivência que poderia ser parte da história de qualquer pessoa. Um tipo de afeto, que, assim como muitos outros, é negado a uma parcela da sociedade. A Banda Uó chega a Juiz de Fora para um show nesta sexta-feira (18), na Avalon Music, em meio à semana em que uma série de atividades lembra e celebra a trajetória da população LGBTI, com vários eventos. Além de festejar, a semana também lança um olhar reflexivo sobre a dificuldade de acesso, as violências e a necessidade de avançar em inúmeras pautas.

Candy Mel, em entrevista à Tribuna, aborda sua vivência como mulher trans e os espaços nos quais ainda é preciso chegar. “A gente luta muito para ser ouvida, mas não é o suficiente. Tudo que falo, de certa forma, tem uma representatividade, mas ainda não alcançamos o que mais precisamos, que é emprego, educação, família, afeto. Acho importante que os artistas com alguma visibilidade, que estão crescendo na cena cultural do Brasil, tenham um posicionamento humano, para além de ser trans, e naturalizem as vivências das pessoas.”

De acordo com a cantora, é preciso trazer as pessoas trans para dentro dos ciclos que todas as pessoas têm normalmente. Ela ainda diz encontrar com frequência dúvidas de como contratar pessoas trans, que afastam empresas e empregadores de uma ação efetiva. “É muito mais simples do que parece. A resolução dos problemas de falta de afeto que temos, de marginalização que sofremos, é o acesso. Se você quer contratar, abra cursos para que as pessoas sejam capacitadas e contrate. É importante abrir espaço para essa discussão, mas que não fique apenas na discussão.”

Candy Mel acrescenta que a estrutura da sociedade é de difícil acesso. “Começa dentro de casa, a menor partícula. Ali dentro, você já não é aceito, já não tem o acolhimento necessário para sair, ir para uma escola e poder se desenvolver como cidadão. Dentro do mercado de trabalho, enfrentamos o pior. Tem uma música da MC Linn da Quebrada que diz que estudar não resolve as outras coisas. Precisamos mesmo que a estrutura seja mudada, mas isso vai ser muito complicado”, avalia. Embora o país tenha em sua totalidade muitas especificidades de acordo com cada região, há situações que são comuns à maioria das pessoas. “Tudo o que a gente tem são soluções paliativas. É nome social, cota para as pessoas estarem ali resolvendo parte do problema. É tudo um meio para estarmos ali, não é realmente um lugar garantido para a gente.”

Por mais acesso

Candy deixa claro que não gosta de falar do que acha. Fala do que sabe e vive. Diz que é cansativo insistir sempre na mesma tecla, mas que não vai deixar de bater, porque entende essa resistência como trabalho dela. “A Mel está ali no palco, no programa, representando, discursando, sendo ouvida. Quando desço daquele lugar, sou um CPF. Aí, acabo encarando a transfobia.” Por conta da carreira e de tudo o que ela conseguiu construir, percebe que não é tão afetada pelo ódio e pelo afastamento. “Mas acompanho muito as minhas amigas, que estão dentro de outros meios de trabalho e que não têm acesso da forma que deveriam.”

Há uma série de situações que incomodam muito, como o nome social. Para Mel, ele tira a legitimidade do nome e, por isso, é uma solução paliativa. “Vivo isso o tempo inteiro. A gente sempre reclama da saúde, uma questão básica para todos, e para nós é complicado. O médico não entende o corpo da pessoa trans, acredita que você tenha nascido com o corpo errado, algo que é extremamente errado falar. Eles jogam a culpa em nós, basicamente.” Isso impede que as pessoas procurem o médico ao sentir os primeiros sintomas. “A gente espera a situação piorar, porque sabemos que vai ser um constrangimento e que muitas pessoas não estão psicologicamente preparadas para encarar isso.”

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Candy enxerga a necessidade de políticas públicas para aproximação com o contato com a sociedade, ao contrário do que vem sendo feito pelo Senado, como cita a cantora, que cria pesquisas pedindo a opinião das pessoas sobre a retificação do nome, e a presença de cartilhas sobre gêneros e suas pluralidades. “Isso não deve acontecer, porque afasta a gente cada vez mais do natural. Nos afasta do acesso que as pessoas cis têm. É completamente ilegítimo criar pesquisas sobre ter acesso ou não. São pessoas que estão ali. Essas pesquisas só mostram o ódio que a população tem com a nossa existência.” Ela reforça que é preciso resolver o problema e não revitimizar as pessoas.

Apoio familiar

Outra situação incômoda ocorre quando as pessoas dizem que precisam entender as vivências das pessoas trans. “Como você entende a vivência de uma pessoa que não seja você mesmo? É muito válido que as pessoas busquem respeitar, e não entender. Compreender a existência daquela pessoa como sendo a dela. Não existe abrir a nossa intimidade de forma extremamente errada, nos dilacerar. Não é dessa forma que vamos conseguir acesso ao natural.” Esse tipo de atitude vai ajudar, segundo Mel, a fomentar as experiências trans como exóticas, estranhas, o que contribui para um afastamento. “Nos coloca em um lugar que é meio circo para as pessoas. Gosto quando as pessoas perguntam para a gente qual é o rolê, porque a resposta é simples. A gente não precisa se encaixar na sociedade, nascemos dentro dela. Em vez de perguntar como contratar, contrate, em vez de questionar como aceitar, aceite. É simples.”

Segundo Mel, as famílias que abrem mão de pessoas trans e as lançam no mundo sem respaldo não estão exercendo a função delas. “Dessa forma criam problemas e nos matam. A partir do momento em que se coloca uma criança no mundo, é preciso dar estrutura e afeto a ela. Nós não pedimos para existir. A função da família é acolher, dar afeto e amor. Se não o fizer, não está cumprindo seu dever.”

Cultura e crítica social

Sobre o trabalho com a música, a artista diz que a cultura deve ser feita como ela é vivida. “Precisamos transformar o trabalho em algo popular, para todo mundo ter acesso e se divertir com a gente, para trazer o pessoal para junto de nós. Só mudamos as coisas em grupo. Quando estamos todo mundo junto, fazendo um show, estamos produzindo também pensamento e crítica social.”

Ter artistas como Candy Mel, Assucena e Raquel, integrantes da Banda As Bahias e a Cozinha Mineira, MC Linn da Quebrada, Liniker, Triz, entre outros, é fundamental. “As pessoas deixam de nos ver como um corpo e passam a nos enxergar como um ser humano, capaz de desenvolver bons trabalhos.”

Ela também fala sobre a importância de apoiar e comparecer em eventos de artistas LGBTI. “Todos devem acompanhar, marcar presença e aplaudir. A gente não pode desistir. Precisamos continuar dando murro nessa cultura dura. Penetrar para trazer algo diferente, mais plural, mais humano.”

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