Grupo faz financiamento coletivo para montar peça sobre a tragédia de Mariana

Pesquisadores e atores, Bruno Quiossa e Felipe Moratori investigam subjetividades e teatralidades por trás da paisagem da cidade devastada por um crime ambiental

Por Mauro Morais

07/12/2017 às 07h00

Para ser rio um curso d’água prescinde da vida. Calar um rio, portanto, requer forças superlativas. Sobre elas voltam-se os atores e pesquisadores Bruno Quiossa e Felipe Moratori, do coletivo Sala de Giz, para a criação de “Terra sem acalanto”. O que a terra devastada ainda tem a dizer?, perguntam-se a dupla juiz-forana e a diretora carioca Tatiana Henrique na construção do espetáculo em processo, que busca no financiamento coletivo, aberto até o dia 8 de janeiro, no site Benfeitoria, sua forma de existir. Partindo da tragédia causada após o rompimento da barragem de Fundão, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, na mineira Mariana, a peça mergulha no universo subjetivo ao colocar em cena dois personagens do lugarejo devastado, Zé Cabeça, um construtor de cercas, e o coveiro de uma cidade vizinha.

“Nosso recorte temático é o poder, mas também a perda dos lugares de origem. O crime cometido pela Samarco contra o Rio Doce é algo muito grave e muito grande. Estávamos certos de que teríamos um vasto material para trabalho”, pontua Moratori. “O mote inicial é um crime ambiental, que a princípio é até difícil de acreditar, um fato grotesco. Quando o real não dá conta de explicar, ele deixa brechas por onde é possível preencher com a ficção, para que nós, de alguma forma, possamos refletir melhor sobre o ocorrido. Nessas brechas é que reside a teatralidade”, acrescenta Quiossa.

Passadas duas mostras de processo, nas quais apresentaram, em outubro, o andamento das pesquisas, o coletivo segue investigando os sentimentos e as sensorialidades presentes na brutalidade dos fatos. “O processo de criação desse espetáculo está fazendo a gente descobrir a gravidade do crime da Samarco e, de fato, temos que questionar um modo de produção capaz de matar um rio. Sobretudo, estamos desvendando a força que esse incidente tem como uma poderosa metáfora para todo o panorama que vem se estabelecendo no país. As lamas despejadas sobre nós têm sido muitas”, comenta Moratori.

Segundo espetáculo da dupla, “Terra sem acalanto” se firma num lugar entre dados e dramas. “Novamente a Sala de Giz quer trazer inquietações com o agora. No “Circo dos quasevelhos”, abordamos o conservadorismo e as discussões sobre gênero, questões que hoje estão muito mais tensionadas, inclusive”, diz Moratori, também dramaturgo do projeto. “Quero conseguir, claro, experimentar outras possibilidades frente ao que a cidade já conhece da minha escrita sem perder coisas que já entendo como características: um apego pelo fantástico, a fábula presente ainda que sempre fragmentada e a preferência por investimento na composição das paisagens mais até que a composição das personagens.”

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A ciência e o encontro

Reconhecida por trabalhos essencialmente sensíveis e engajados, a atriz, contadora de histórias e educadora Tatiana Henrique traz para a cena sua vasta experiência teatral e também sua inclinação para as questões da memória social, área na qual fez seu mestrado. Premiada como melhor atriz no Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora de 2011, com o espetáculo “O que fazem as meninas quando desabrocham?”, baseado em contos de Mário de Andrade, Tatiana retorna à cidade num trabalho cujo corpo é mais forte que a palavra.

“Acompanhávamos o trabalho dela há um tempo. Quando sentimos a necessidade de trazer uma pessoa para dirigir o espetáculo, o primeiro nome que nos veio à cabeça foi o da Tatiana, por enxergarmos no trabalho de teatro dela pontos que, além de nos alimentar cenicamente, dialoga bastante com nosso estilo de trabalho”, afirma Bruno Quiossa. “O encontro com a diretora Tatiana tem sido muito sensível e muito focado nas poéticas do corpo, meu desafio como dramaturgo é conseguir preservar a potência desse trabalho de construção, que não reside na palavra, mesmo depois que o texto estiver estruturado”, aponta Felipe Moratori.

Ao lado de Mariana, ao lado da lama, na também histórica Ouro Preto, a dupla juiz-forana cursa o segundo ano do mestrado em artes cênicas. A proximidade, com a ciência e com a tragédia impregnam, portanto, o trabalho artístico. Segundo Moratori, a investigação acerca do “papel híbrido do dramaturgo-ator como função criadora na cena contemporânea” salta-lhe aos olhos. “O mestrado e a prática estão totalmente interligados, pois o que pesquisamos é o que fazemos e o que fazemos é o que pesquisamos”, comenta Quiossa.

Ainda assim, ainda que “Terra sem acalanto” responda às conjecturas acadêmicas e artísticas, segundo seus criadores, discute, sobretudo, a potência humana diante da degradação, voltando-se, assim, para ponderações primordialmente cidadãs.

“Arrisco dizer que o retrocesso que vivemos hoje não se define como um ‘tempo obscuro’ porque tal retrocesso está tão às claras, tão evidente, que o desafio é a complexidade para ler todo esse cenário assustador em que estamos mergulhados”, sugere Moratori.

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