A vida é uma Bike em loopping

O vocalista e guitarrista Julito Cavalcante, fundador da banda, conversa com a Tribuna sobre seu projeto musical e a turnê do álbum “Em Busca da Viagem Eterna”

Por Carime Elmor

06/09/2017 às 20:02hs - Atualizada 08/09/2017 às 19:17hs

 

Julito Cavalcante, vocalista e guitarrista da Bike, em show no The Shacklewell Arms, em Londres. (Foto: Gary Franklin)

Em maio deste ano, Luiza de Azevedo e Felipe Mattos formaram a produtora Microwave, uma união de força de vontade para trazer bandas do cenário nacional para Juiz de Fora. A vinda da Bike, em 7 de setembro, é a prova de que essas produções estão em movimento por aqui. Eles tocam no Brauhaus Zeppelin, recém-aberto, junto à banda local The Basement Tracks, que está em fases de preparação de seu primeiro full álbum.

“Muito do que observamos em cidades que a gente passa e não costuma ter muitos shows de artistas independentes é que quem produz gosta das bandas. E como não tem ninguém que leve para a cidade, começou-se a criar esse lance de produzir eventos e descobrir pequenos espaços que podem fazer o show, que às vezes rolam em estúdios ou até na casa das pessoas. Eu acho importante, mais gente se interessa, a gente não precisa ficar dependendo de um grande produtor ou festival”, afirma Julito Cavalcante, vocalista e guitarrista da banda Bike.

A intenção é poder explorar lugares nos quais nunca foram convidados a tocar. Três cidades dessa turnê que vai até o próximo domingo, 17, são inéditas, e somente em 2017 a Bike já tocou pela Espanha, Portugal, Escócia e Inglaterra. “Tem muita banda que fica acomodada em São Paulo, e a gente pensa o contrário, quer mais é sair daqui mesmo.”

Neo-neo-psicodelia

Nomes de músicas são sempre questões complicadas, imagino a conexão de referências ou a total aleatoriedade para se chegar a nomes como “Psicomagia”, “Do caos ao cosmos” e “O enigma dos doze sapos”, faixas contidas no segundo full álbum da banda paulista Bike, nem sempre deve ser fácil acertar. Mas acho que no final das contas a oitava faixa diz muito sobre o som da banda.

São considerados pelas críticas (e falta delas) como psicodélicos, afirmação reiterada nos textos e corroborada pelos integrantes. O Boogarins pode sim ter aberto uma espécie de portal, como afirmou Julito em entrevista ao “Estadão”. Mas é forçação de barra colocar Bike e Boogarins na mesma frase, a não ser que tenha um “não” entre os dois. Não dá para se comparar a sonoridade e nível de experimentação. Os músicos do Boogarins têm uma reciprocidade perfeitamente consistente, o que fazem no ao vivo é de nos tirar desse mundo terrestre – e isso inclui suas letras.

Conversando com Julito ao telefone, tocamos nesse assunto, da disparidade entre a estética psicodélica sonora de algumas bandas se comparada com a parte letrada. As letras podem, às vezes, estar em um universo muito limitado, cheio de pequenez, há uma falta de elevação espiritual e até de criatividade mesmo em relação ao que a sonoridade psicodélica se propõe como arte de expansão da mente. Chego a me perguntar se algumas psicodelias de hoje, salvo exceções, são realmente experimentais, se surgem a partir de um total desprendimento de tudo que já sabemos para vazar o insuprível.

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Utilizar pedais de efeito e plugins da mesma forma que já se faz milhares de vezes chega-se ao pop, mas não ao psicodélico. Lembrei-me de uma entrevista que fiz com Ynaiã Benthroldo, baterista do Boogarins, em que ele compara Tame Impala ao pop, por não ter qualquer grande segredo e brinca em tom de seriedade que “uma orquestra de djembê tocando junta é muito mais psicodélico do que o que consideram por aí”. Ser psicodélico hoje na música talvez seja conseguir se reinventar, tendo sempre ideias frescas e profundas.

Sempre me questiono isso. Que mecanismos da nossa mente faz com que tenhamos uma experiência estética única quando estamos diante de uma obra de arte? Perguntei ao Julito quais efeitos as bandas que ele escuta e traz como referência para a Bike provocam nele. “Normalmente as músicas me atraem muito mais pelas sensações que elas causam mesmo. Eu não costumo ir muito atrás de artistas porque são virtuosos ou coisas do tipo. Às vezes uma música bem simples acaba me trazendo alguma sensação legal, e isso, para mim, eu acho que é mais importante. Eu me apego um pouco no que a pessoa está tentando passar. Eu acabo me atraindo por letras que não são tão comuns, como temas de amor ou outro sentimento. Gosto mais quando é uma viagem mesmo da pessoa, e você pode ou não fazer parte daquilo”, respondeu Julito, que também já foi baixista da banda de rock instrumental Macaco Bong.

A fala do vocalista é bastante complementar ao que a Bike se propõe e se apresenta como banda. Suas viagens alucinógenas sob uso de substâncias psicotrópicas podem ou não os levar a algum lugar. “A montanha sagrada“, por exemplo, é uma música em que as guitarras, nos primeiros acordes da introdução, simulam um som de cítara. A sobreposição de guitarras e o uso de pedais de efeito são a plasticidade estampadas em suas músicas, com atmosfera lenta e preenchida por ruídos.

Além das duas guitarras de Julito e Diego Xavier, a musicista faz-tudo (guitarra, voz, bateria, sintetizador, baixo) da My Magical Glowing Lens, Gabi Deptulski, vai ser a terceira guitarra da Bike durante a turnê que começou ontem, 6 de setembro, em Belo Horizonte. “A ideia é fazer com que o público realmente acabe entrando em um universozinho nosso ali do palco, que a gente tenta expandir para quem está assistindo ao show”, explica Julito.

O show da Bike é mais uma forma de expressão artística pessoal que uma audição acerca de uma exímia execução musical. “Convidamos todos para fazerem parte daquilo, e não é uma coisa que a pessoa tem que ficar assistindo, prestando atenção no que cada músico está fazendo. É mais um lance de fechar o olho e tentar acompanhar aquele monte de ruídos e sonoridades que a gente acaba criando”, define o guitarrista e vocalista.

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