Falta de estrutura dificulta acesso a diário escolar digital na rede estadual

Apesar de Estado ter adotado novo sistema, pais reclamam que não têm informações sobre notas dos filhos

Por Renan Ribeiro

14/09/2017 às 07:59hs - Atualizada 14/09/2017 às 07:59hs

 

O objetivo do diário escolar digital adotado este ano na rede estadual de ensino é a ampliação da interação entre pais e profissionais da educação, concentrando todas as informações que antes eram registradas em papel, como a divulgação das notas dos estudantes. A plataforma idealizada pela Secretaria de Estado de Educação, no entanto, tem trazido uma série de dificuldades tanto para os professores, que não contam com a estrutura necessária para a atualização das informações, quanto para alunos e responsáveis, que não conseguem ter acesso aos dados pelo site.

“No meu entendimento, até que a mudança termine, deveria haver uma transição real, incluindo todos os procedimentos que eram feitos até então. Mas não é o que acontece. Não conseguimos ter acesso às notas, porque sabemos que os professores não estão conseguindo lançá-las no sistema”, relata a professora Virgínia Rodrigues, mãe de um estudante do terceiro ano do ensino médio da Escola Estadual Duque de Caxias. De acordo com ela, os boletins não foram fornecidos, e a plataforma ainda está inacessível aos pais.

“Em conversa com alguns funcionários soube que o sistema não funciona e que os professores não sabem o que fazer.” A mãe demonstra preocupação, porque o filho dela está se preparando para prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e, até o momento, não tem qualquer referência sobre o próprio desempenho. “Estamos em setembro, ainda não saiu boletim. A direção orientou que meu filho buscasse cada um dos professores para saber as notas.” Virgínia questiona a situação porque muitos alunos contam exclusivamente com a preparação dada pelo colégio para o Enem, por não ter como pagar um cursinho particular.

A vice-diretora da Escola Estadual Batista de Oliveira Ananda Elisabeth Fernandes, reforça que a falta de estrutura é a principal barreira sentida nas escolas em relação a essa tecnologia. “No início do ano, sofremos uma série de assaltos, em que os nossos computadores foram todos levados. O que recebemos da Secretaria de Educação foi reposto na secretaria da escola, onde a defasagem era maior. Então, para o cadastro dos professores, precisamos parar o serviço da secretaria. O equipamento físico é pouco, e a internet é muito lenta. Para atender a instituição, contamos com 2mb de velocidade”, detalha.

Segundo Ananda, o uso do diário digital chegou depois do início do ano letivo e impactou a rotina dos profissionais. Ela indica o acesso ao cadastro de professor como a maior dificuldade em lidar com a plataforma. Seja porque o site fica muito tempo fora do ar ou por causa dos inúmeros acessos. “Isso dificulta e atrasa o nosso trabalho. Não conseguimos implementar ainda o diário escolar digital. Estamos em fase de cadastro de professores ainda. É muita novidade, e não podemos exigir que todo mundo seja alfabetizado digitalmente, lidamos com todas essas barreiras.” Na escola, o processo de registro do diário escolar ainda é feito no papel.

Diante de situação, Sind-UTE debate boicote a modelo

O coordenador regional do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE), Givanildo Guimarães, reitera que o Estado não oferece condições para que o novo sistema seja implementado. “Precisamos dobrar o serviço, levamos material para casa, porque é impossível que todos os professores façam a atualização nas escolas. As instituições não possuem computadores para atender a todos.” Ele explica que a categoria não foi acionada para avaliar a medida e não foi ouvida sobre o processo de adoção do sistema. “Somos pressionados, com base no assédio. Não há uma resolução clara sobre como essa mudança precisa ser feita, isso é muito grave. Alguns professores nos relataram que houve pressão para que assinassem um documento, o papel dizia que eles se negaram a fazer o lançamento.”

Givanildo afirma que o Governo criou uma desorganização. “Vendeu um peixe, criou expectativas em todos, mas não foi realista, não garantiu a estrutura. Agora discutimos em assembleia o boicote a esse modelo. É importante frisar que não somos contra a modernização, mas precisamos garantir que não vai haver assédio e que teremos todas as condições adequadas para realizar o trabalho.”

Em nota, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) informou que atualmente há quase duas mil salas de docentes com conectividade por todo Estado, além dos equipamentos dos laboratórios de informática em todas as escolas da rede, que estão disponíveis para uso dos professores. “Em 2016, foram adquiridos 40 mil computadores, sendo que 23.200 já foram entregues e o restante está sendo entregue agora, sendo que a maioria já está instalada. A SEE investiu mais de R$ 145 milhões, em 2015 e 2016, nessas ações. Também em 2015 e 2016 foram investidos nas escolas estaduais cerca de R$ 25 milhões em infraestrutura de rede lógica e elétrica, necessária para funcionamento desses equipamentos.” Em relação à sobrecarga, a SEE destaca que um terço da jornada de trabalho semanal do professor é destinada a atividades extraclasse, que incluem, por exemplo, o lançamento de frequência e notas nos diários escolares.

O Estado ainda explicou que a plataforma passa por aperfeiçoamento para que, futuramente, em uma versão atualizada, pais e alunos possam ter acesso ao perfil do estudante. “Enquanto essa funcionalidade não estiver disponível, as notas e frequência dos alunos serão divulgadas da mesma forma que era feita anteriormente, por meio de boletim com as notas, encaminhado pelos professores ou direção da escola ao aluno/pais ou responsáveis.” Caso surja alguma dúvida, a orientação é que o responsável procure a unidade escolar diretamente.

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