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Moradores de condomínios de JF dão exemplo de solidariedade

Vizinhos se unem em diferentes ações para ajudar outras pessoas a enfrentar a pandemia da Covid-19


Por Gracielle Nocelli

10/05/2020 às 07h00

Em meio às incertezas e inseguranças da nova realidade imposta pela pandemia da Covid-19, condomínios de Juiz de Fora dão exemplos de empatia e generosidade. Por meio de diferentes ações, moradores se unem para ajudar os vizinhos e mostram que para ser solidário não é preciso ter muito, mas é essencial saber enxergar o outro.

As necessidades são diferentes. Há famílias que perderam renda e atravessam este momento com problemas financeiros. Idosos e outras pessoas incluídas no grupo de risco enfrentam dificuldades para realizar tarefas cotidianas, já que sair às ruas implica em maior exposição à transmissão do vírus. Além disso, as barreiras criadas pelo isolamento social têm deixado muitas pessoas emocionalmente fragilizadas.

Larissa Borges Possato tem feito serviços bancários para quem integra grupos de risco (Foto: Reprodução)

Diante de tudo isso, ser solidário é confortar o outro com a certeza de que ninguém está sozinho nesse momento, como explica a auxiliar de biblioteca escolar, Flávia Moura Caldas, 40 anos. Subsíndica do Residencial Park Marilândia, localizado no bairro homônimo, na Cidade Alta, ela iniciou uma campanha para a arrecadação e distribuição de alimentos e de materiais de limpeza dentro do condomínio.

A estimativa é que no empreendimento, que possui 960 apartamentos, morem cerca de três mil pessoas. “É quase uma cidade. Temos pessoas de diferentes faixas etárias e realidades financeiras”, diz Flávia. Com o olhar atento a quem está a sua volta, ela percebeu que os reflexos da pandemia seriam diferentes em cada um desses lares. “Desde março, quando as medidas de segurança foram intensificadas, eu percebi que a situação poderia se agravar para algumas pessoas.”

O primeiro passo foi reunir contatos e informações de oito grupos de WhatsApp referentes a cada uma das torres do residencial. “Criei um cadastro das famílias que precisavam de ajuda, o que me possibilitou fazer uma triagem para saber como ajudar. Uma casa com crianças tem necessidades diferentes, por exemplo”, avalia. “Observei que muitos moradores são profissionais autônomos que estão com as atividades paralisadas e, por isso, perderam renda.”

Ela, então, envolveu os demais moradores na causa. “A preocupação das famílias é a sobrevivência, se podemos ajudar, da forma que for possível, essa ajuda é bem vinda.” A mobilização garantiu a distribuição de 25 cestas básicas e outros itens avulsos que não foram contabilizados. Um morador que é proprietário de hortifruti doou frutas, verduras e legumes.

“Às vezes, a família precisa de um ou outro alimento. Por isso, não importa o tamanho da ajuda de quem doa, ela sempre faz a diferença na vida do outro.”

A área de lazer, fechada por causa da pandemia, tem funcionado como estoque. “Já temos oito cestas prontas e mais produtos avulsos. A ação vai continuar enquanto as pessoas precisarem.”

A empatia de Flávia vem da sua própria história. “Fui criada por uma tia desde os 5 anos, quando ela também teve um gesto solidário comigo”, conta emocionada. “A vida é assim: a gente ajuda e é ajudado. Hoje um precisa, amanhã pode ser eu. O mais importante de tudo isso é entender a dor do outro.”

‘Alguma coisa boa tem que sair de tudo isso’

Além da campanha para a arrecadação e distribuição de alimentos e materiais de limpeza, os moradores do Residencial Park Marilândia criaram outras ações individuais que priorizam o bem-estar coletivo e, assim, formaram uma verdadeira corrente de solidariedade.

A vendedora Larissa Borges Possato, 24 anos, que também mora no local, tem realizado serviços bancários e compras para vizinhos idosos e os demais que integram o grupo de risco da Covid-19. “Vi esta ação em uma rede social e achei muito boa. Mandei no grupo de WhatsApp do condomínio e todos abraçaram a ideia.”

Ela conta que outros moradores também têm colocado a ação em prática. Os telefones destes voluntários são informados nos elevadores e no grupo da rede social, possibilitando que quem precisa da ajuda, entre em contato.

“O vizinho nos procura, nós vamos até ele, devidamente protegidos, e pegamos o dinheiro para pagar a conta ou fazer a compra.”

A motivação para ajudar, de acordo com Larissa, vem do entendimento de que é preciso enfrentar esta situação juntos. Emocionada, ela lembra dos avós que também precisam deste tipo de ajuda, mas que não pode visitar nesse momento. “Estou ajudando os avós de outras pessoas. Me sinto útil e grata por ter saúde e poder fazer isso.”

Ela espera que mais pessoas reproduzam as iniciativas que estão sendo feitas no Residencial Park Marilândia. “Ser solidário nesse momento é de suma importância, pois tem muita gente precisando. Quem pode, deve ajudar”, incentiva. “Essa pandemia veio mostrar que a gente precisa ser solidário, não só agora, mas para o resto das nossas vidas. A gente tem que tirar uma lição, alguma coisa boa tem que sair de tudo isso.”

Colaboração mútua reduz dificuldades do isolamento

O isolamento social segue como a principal medida de segurança contra a Covid-19, conforme orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas assegurar que as pessoas fiquem em casa com tranquilidade tem sido um desafio, que pode ser superado quando há soma de esforços. Os moradores do condomínio Chateau Porto Moniz, no Bairro Paineiras, na região central, adotaram uma rotina de colaboração mútua que tem tornado esta realidade menos dura.

No local moram, aproximadamente, 30 famílias. A iniciativa aconteceu de forma espontânea, como relata o representante comercial Weslley Almeida, 32 anos, que também é subsíndico do prédio.

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“Nós temos um grupo de WhatsApp dos moradores e ali começamos a oferecer ajuda para tarefas do dia a dia. Eu me disponibilizei a ir ao supermercado porque sei que há vizinhos idosos que podem ter dificuldade para fazer compras”, diz. “Mas tem sido uma troca, eu ajudo e também já fui ajudado.”

Além de Weslley, outros moradores oferecem esse tipo de apoio. Para facilitar as solicitações de quem precisa, os contatos foram fixados no quadro de avisos do condomínio. Além disso, as pessoas criaram o hábito de informar umas às outras pela rede social. “Os vizinhos são muito solidários. Quando alguém vai ao mercado avisa no grupo para saber se o outro precisa de algo. Quando pedem quentinhas em restaurantes também perguntam se alguém quer. Existe essa preocupação.”

Weslley se oferece para fazer compras para idosos e participa de outras ações solidárias (Foto: Reprodução)

Segundo ele, a demanda por compras foi maior no início da pandemia. “Assim que tudo aconteceu, a oferta de delivery era mais reduzida. Então, a procura dos vizinhos era maior. Agora, muitos segmentos se adaptaram e passaram a oferecer entrega, mas, mesmo assim, continuamos oferecendo esta ajuda.”

Além do apoio com as compras, outras ações que priorizam a segurança dos moradores foram realizadas. “Uma vizinha ofereceu para confeccionar máscaras de tecido. A minha esposa conseguiu o contato de um verdureiro que vem duas vezes por semana na porta do prédio, também para ajudar as pessoas a se manterem no isolamento social.”

Inspiração

Natural de Pequeri, a cerca de 50 quilômetros de Juiz de Fora, Weslley conta que os pais idosos ainda moram naquele município. “Não é fácil ficar longe, mas eu sei que eles estão recebendo ajuda de vizinhos e amigos. Isso me deixa mais tranquilo. Espero que as nossas ações aqui no condomínio também sirvam para tranquilizar outros filhos.”

Para ele, a solidariedade é uma forma de resgatar a esperança. “É importante para vermos que ainda há humanidade no mundo. Estamos num momento muito difícil, mas é bom ver que existe empatia”, diz. “Quando tudo isso começou existia o medo de o egoísmo ser maior, de as pessoas irem aos supermercados e estocarem produtos. É bom ver as pessoas se preocupando com o próximo. É este exemplo que quero dar às minhas filhas.”

Cultura para ajudar a resistir

Ana Paula Lins, moradora de um condomínio na Zona Norte, criou uma biblioteca feita com estantes ecológicas e livros doados por vizinhos (Foto: Fernando Priamo)

Com as áreas comuns fechadas, os moradores dos condomínios Parque Jardim Atlântico e Parque Jardim Bandeirantes, no Bairro Industrial, na região Norte, reduziram as possibilidades de interação e passaram a ficar mais tempo dentro dos apartamentos. Os empreendimentos totalizam em torno de 800 unidades. A situação é temporária, mas ninguém sabe ainda qual será a duração exata.

Para ajudar a ocupar a mente, uma moradora decidiu recorrer aos livros. A empresária Ana Paula Lins da Silva, 36 anos, disponibilizou estantes ecológicas com vários exemplares. “A ideia surgiu com minha amiga, Daniele Moraes, que é arquiteta. Decidi trazer este projeto para o condomínio.”

O acervo, construído com exemplares próprios, é disponibilizado gratuitamente aos vizinhos, que podem pegar emprestado, levar para casa e, se quiserem, até ficar com o livro. Quando isso acontece, há a orientação para que façam a doação de outro exemplar para que o projeto tenha continuidade. “Ao lado das estantes há álcool em gel para que a interação ocorra sempre de forma segura”, certifica Ana Paula.

Ela conta que a resposta tem sido muito positiva. “Recebo mensagens de pessoas agradecendo, querendo doar livros. Muitas delas gostam e querem reproduzir onde a mãe, a avó moram. É uma ideia que começou de forma simples e se tornou uma ação cultural.” Ana Paula já ajudou a levar o projeto para cinco condomínios da cidade.

Relevância social

A iniciativa tem despertado o interesse de moradores de todas as idades e, assim, revelado sua importância social.

“Temos muitas crianças que estão com as atividades escolares paralisadas, então, as estantes acabam incentivando o hábito da leitura. Para os adultos, é uma maneira de ocupar a mente de forma diferente, pois a gente fica muito preso à internet e às redes sociais.”

Ana Paula conta que a ação também tem trazido benefício para ela. “Eu me sinto útil por poder ajudar de alguma forma e, também, muito grata por receber o carinho das pessoas.”

Atuante em projetos sociais na cidade, ela afirma que a solidariedade deve ser uma prática contínua. “Neste momento é muito importante, porque muitas pessoas estão fragilizadas, mas a ajuda não pode se restringir apenas durante a pandemia. É necessário que ela faça parte da nossa rotina.”

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