Crianças dividem infância com estudos sobre ciência, programação e empreendedorismo

Antes mesmo da adolescência, Gustavo, Manoela e Matheus já apontam caminhos para protagonizarem novos saltos no conhecimento humano

Por Tribuna

16/07/2017 às 04h00 - Atualizada 15/07/2017 às 14h08

Por Matheus Policarpo, estudante e colaborador sob supervisão do editor Guilherme Arêas

Todo profissional já foi uma criança. Na lista de chamada das aulas de ciência apareciam nomes como o de Marcos Pontes, que viria a se tornar o primeiro astronauta brasileiro a viajar pelo espaço; Alan Turing, que anos depois seria considerado um dos pais da computação teórica e inteligência artificial; e Bill Gates, o garoto que fundaria a Microsoft e seria um dos líderes no desenvolvimento do computador pessoal. Considerados complexos por alguns adultos, estudos da astronomia, robótica, empreendedorismo e programação digital têm sido um espaço de diversão para esses pequenos curiosos, que já contam com cursos específicos sobre os temas. A Tribuna conversou com três dessas crianças que, antes mesmo da adolescência, apontam caminhos para protagonizarem novos saltos no conhecimento humano, atuando como programadores, palestrantes e até professores, sendo consideradas referências já na infância.

Em Juiz de Fora, as linhas de códigos Front-end (HTML, CSS e JavaScript) e jogos como “Minecraft” e “Clash of Clans” fizeram brilhar os olhos de Gustavo Guineli e revelaram o desejo de o garoto se tornar um programador e Youtuber com apenas 8 anos de idade. Os primeiros passos já estão sendo dados em uma escola de tecnologia e inovação recém-aberta em Juiz de Fora. Por meio das variações de linguagens e a relação com a internet, o desenvolvimento do estudante já apresenta frutos para o portfólio, produzindo barracas e fogueiras cibernéticas dentro do universo de games. “Eu queria aprender a programar porque é a coisa que mais gosto. Hoje fiz um jogo de uma nave que atirava nos inimigos, fiz a explosão, o tiro e nosso herói, o personagem”, conta Gustavo, em entrevista à Tribuna após sua aula.

Apesar de se divertir aprendendo, as responsabilidades do miniprogramador são divididas com estudo regular no colégio, sob a supervisão da mãe, Aloíza Guinelli, que contou sobre a vontade própria do filho na busca pelo conhecimento tecnológico. “Não teve incentivo de ninguém, tudo isso veio dele. Tento manter horários, se não ele só fica conectado. Para que não prejudique a escola, priorizo os deveres. Além disso, acabo procurando informações sobre os conteúdos na internet para estar sempre o orientando sobre as coisas boas e ruins”, explica Aloíza.

Estudante de programação, o juiz-forano Gustavo Guineli, 8 anos, faz jogos e tem um canal no Youtube. (Foto: Bárbara Landim)

Segundo Rafael Motta, instrutor da instituição de ensino Happy Code, onde Gustavo estuda, o aprendizado é uma oportunidade de aprimoramento em todas as áreas educacionais, além de já fomentar desafios para se levar à vida adulta, quando os aprendizes vão encontrar situações em que necessitam do raciocínio lógico.

“Quando comecei a aprender programação, percebi que trazia uma maneira diferente de pensar. Para aprender programação, tem que entender um pouco sobre como o computador pensa, então você começa a trabalhar seu raciocínio lógico, que vai usar em todas as áreas da sua vida. Então, você vai começar a pensar direcionado na resolução de problemas, e isso é muito útil em qualquer área. O objetivo da escola também é desenvolver o raciocínio, para que as crianças saiam daqui preparadas para enfrentar desafios”, explica Rafael.

Em seu canal no Youtube, “Guga Gameplays br br”, Gustavo explica detalhes funcionais e mecânicos, além de ensinar estratégicas para o usuário conseguir cumprir objetivos e ser premiado nos jogos. A inspiração veio do mineiro Marco Túlio, de 20 anos, dono do canal AuthenticGames, com mais de dez milhões de inscritos. Os vídeos que Gustavo posta em seu canal foram gravados e editados com seu próprio smartphone . “Um dia perguntei para ele ‘Você vai querer ser um Youtuber mesmo?’, daí ele me disse: ‘Mãe, eu já sou um Youtuber’, conta Aloíza Guinelli.

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De artesã a empreendedora social… aos 9 anos!

Lá na cidade de São Bernardo, em São Paulo, com seus 6 anos, uma menina já começava a dar os primeiros passos para se tornar uma empreendedora. Com o objetivo de comprar a boneca tão desejada, que custava R$ 200, Manoela decidiu produzir materiais de decoração em casa, como pulseiras e quadros que ela própria pintou e vendeu no salão de beleza da sua mãe, Rosimere Meroti. Com o aporte de R$ 100 reais do pai, a criança conseguiu juntar o dinheiro. “Falei para ela que só tinha a metade do valor, e que ela teria de arrumar a outra. Inicialmente, achei que ela iria pedir para os tios e parentes mais próximos, mas ela começou a procurar vídeos na internet e aprendeu a fazer algumas pulseiras de elásticos, e, para complementar, começou a pintar alguns quadros feitos a mão”, conta Evandro Peixoto, pai de Manoela. “Depois descobri que ele comprou e escondeu de baixo da minha cama”, rebate a menina.

Com 9 anos, Manoela Meroti é empreendedora e planeja hackathon solidário (Foto: Divulgação/Campus Party Brasil)

Hoje, aos 9 anos, ela tem um canal no Youtube em que ensina desenho e artesanato e já acumula no currículo participações em maratonas de programação, conhecidas como hackathon. Manoela venceu um HackaNoel, competição social de programação em que os participantes criam presentes que empoderem crianças de comunidades de baixa renda, e ainda participou do Hackathon Women’s Heath. Esteve presente ainda em outros eventos de tecnologia, como o Arduino Day; Campus Party, em que foi palestrante em duas edições; e BlueHack IBM, em que foi jurada.

Em entrevista à Tribuna, durante a primeira edição da Campus Party Brasília, em meados de junho, a garota diz ter um plano solidário e revela o desejo de aprender a programar, viajar para a Europa e Estados Unidos, além de trabalhar melhor o networking (rede de contatos). “Agora estou fazendo empreendedorismo social, porque eu queria fazer um hackathon para tirar as crianças da rua. Daqui para frente, gostaria de fazer isso e viajar o mundo, ir para Paris, Estados Unidos e também outros lugares na Europa”.

Satélite artificial para engenheiro da Nasa

Professor de programação, Matheus Moraes tem 11 anos e apresentou um satélite artificial para engenheiro da NASA. (Foto: Divulgação Campus Party Brasil)

Para algum dia ver tudo de cima e sereno, Matheus Moraes começou a planejar seu sonho após aprender a ler, ao 7 anos. “Meu objetivo é ser astronauta, penso no futuro em mexer com outros comandos de programação. Gosto de fazer jogos em unidades infinitas, com gamificação (prática que consiste em utilizar recursos de jogos em outros contextos), e coloco um assunto dentro de um jogo, onde você vai aprendendo mais sobre ele enquanto joga”. Tendo seu pai como mentor, o garoto alinhado com os universos tecnológico e cósmico decidiu trilhar seu caminho passando pela programação e ainda trabalhando como professor de programação em uma ONG, ao lado d pai, Michel Moraes. “Vimos uma oportunidade de ensinar crianças carentes em Mauá. Depois de um ano, ele começou a assumir a aula sozinho e eu abri outra sala”, conta o pai.

Além de promover o conhecimento computacional e suas linguagens, Matheus foi convidado para ministrar palestras e oficinas em universidades e eventos como o Science Days, realizado pelo Kennedy Space Center (quartel general da Nasa), na Faculdade de Engenharia de Sorocaba (FACENS), onde ensinou como fazer um jogo que simula as reações gravitacionais conforme a movimentação das estrelas e apresentou o projeto de um satélite artificial especial para Gabe Gabrielle, engenheiro da Nasa.

“Fiquei maravilhado como nessa idade ele pode corresponder comigo, e ainda mais quando faz palestras. É tão natural, ele ama o que faz,  gosta de compartilhar e tem uma confiança que eu nunca vi nessa idade. Espero que ele vá para Marte e que faça jogos de computador lá, acho que ele pode fazer tudo o que quiser”, salienta Gabe.

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