O que faz a cabeça de Ailton Paiva

De jogador de futebol a cabeleireiro e empreendedor, Ailton lembra luta iniciada ainda bebê

Por Mauro Morais

27/08/2017 às 06h00

Além dos cinco salões que carregam seu nome, Ailton também é dono de uma fábrica de picolés e prepara a abertura de uma lanchonete (Foto: Fernando Priamo)

Quando nem sequer sabia acenar, ele deu adeus. “Fui criado sem pai. Meu pai morreu quando eu tinha dois meses de idade. Ele morreu afogado. A gente tinha ido para a casa do meu avô, em Leopoldina, ele pulou num açude, e a lama não deixou ele subir”, conta o cabeleireiro Ailton Augusto Paiva de Oliveira, aos 38 anos. Filho caçula do casal Ana Maria e Antônio Carlos, cresceu junto da mãe e dos avós. Em campo, o menino de temperamento forte libertava-se da vida dura.

Aos 14, treinando no Sport, decidiu guiar-se pela bola e saiu de casa rumo ao clube carioca Vasco da Gama, para onde havia sido aprovado. “Joguei futebol no Rio de Janeiro, dos 14 aos 17, depois voltei e saí de novo. Treinei no Botafogo, no Vasco, no Americano, de Campos. Mais tarde fui para Belo Horizonte e treinei no Atlético e no América”, recorda-se ele, lembrando, também, do frio e da fome que a bola não foi capaz de amenizar.

“Saí com coragem e fé. Passei muitas dificuldades nas cidades que ia. Às vezes, eu passava fome. Frequentava restaurante popular. Minha família é trabalhadora e não tinha recursos para me ajudar fora. Se eu tivesse apoio ou uma situação melhor poderia ter vencido, mas não tive. Não é uma vida fácil, até porque, é o Brasil todo tentando, e eles escolhem os melhores do país e até de fora. A maioria dos clubes pequenos está falida e não tem como sustentar os jogadores”, comenta o cabeça de área.

Aos 20, sem ter se profissionalizado, abandonou a vida de atleta. “O último clube que treinei foi o Venda Nova, em Belo Horizonte. Lá eu praticamente não ganhava nada. Jogava torcendo para que um dia alguém me visse e mudasse minha história. Eu era um jovem muito rebelde. Achava que sempre estava certo. E nunca estava certo. Fui pulando de clube em clube até desistir.” Novamente vestiu-se de coragem e enfrentou outra partida. “Nosso trabalho aqui é igual a time de futebol, sempre tem um saindo e outro chegando”, diz ele, técnico no salão que leva seu nome, cuja matriz funciona na Rua Halfeld, com filiais espalhadas pela cidade.

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O início e o final da fila

Com as chuteiras em mãos, Ailton voltou para perto da mãe, dos avós e dos três irmãos (Anderson, Josi e Júlio) e empregou-se numa empresa de ônibus. “Minha mãe era cabeleireira, e eu trabalhava no ônibus das 12h50 às 19h15, mas na parte da manhã ia para o salão dela cortar cabelos. Para passar máquina, na época, eu cobrava R$ 2”, recorda-se. Trabalhou, ainda, no comércio, até que, aos 27 anos, se viu desempregado e desesperançoso. “Fiquei muito chateado. Até que um dia consegui vaga num salão, onde fiquei por mais de quatro anos. Na Galeria Bellini. Eu era um dos que mais se destacavam no salão. Depois disso fiz sociedade com minha mãe, no Manoel Honório. Deu certo até que ela saiu. Voltei, outra vez, para o final da fila. Eu era casado, e minha esposa me incentivou a procurar uma loja para alugar. Um dia, achei essas lojas na Rua Halfeld para alugar. Liguei para o telefone e a mulher que me atendeu passou o valor do aluguel e pediu dois fiadores com renda de mais de R$ 10 mil. Minha ex-sogra conseguiu e eu fiz o contrato. Abri o salão só com uma nota de R$ 100 no bolso. Montei tudo, e pouco a pouco, as pessoas começaram a chegar. Com 15 dias de porta aberta, perguntei a Deus como faria para pagar o aluguel. Eu tinha um compromisso com os fiadores”, conta o homem que arregaçou as mãos e foi para a calçada divulgar seu trabalho. “A gente sempre panfletou. Juntava um dinheiro, ia no xerox e distribua panfleto na porta.”

A própria imagem refletida

Com seis cadeiras disponíveis, Ailton passou a atender e ensinar. “Começaram a chegar pessoas desfavorecidas pedindo emprego, pedindo para ensinar a cortar. Eram pessoas que a sociedade já não acreditava, que a família já tinha desistido. Também vieram jovens, muitos jovens. Aí eu me lembrei da minha vida. E pensei: vai ser agora que vou ajudar os outros, da mesma forma como eu fui ajudado”, emociona-se ele, dizendo ter recebido ex-presidiários e ex-viciados em drogas. Atualmente seus olhos estão voltados para a juventude. “Hoje vejo salões em bairros com meninos novos, trabalhando, tendo começado aqui. Eles tiveram suas vidas mudadas”, orgulha-se ele, que com apenas sete anos conseguiu abrir outros cinco salões: primeiro na Avenida Francisco Bernardino, depois na Rua Marechal Deodoro, novamente na Halfeld (específico para o público feminino), em seguida na Rua São Sebastião (já fechada) e, por fim, na Rua Silva Jardim. “Esses salões estão abertos com muito sacrifício e renúncia. Abri mão de ter imóveis, carro zero, justamente para alcançar isso, que, para mim, é o mínimo, é só o começo. Meu objetivo é montar núcleos em muitos bairros, formando profissionais”, diz o homem popular, a todo instante cumprimentado na rua, gritado por quem passa na porta da matriz, por um público diverso que integra o cenário de sete mil atendimentos por mês, número que já foi maior, cerca de dez mil mensais. “Hoje, com a economia em baixa, aquele cliente que cortava duas vezes por semana só corta uma vez.”

A resistência aos ventos ruins

Com três filhos (Naiara, 21; Igor, 20; e Natália, 18) e um casamento desfeito há seis anos, Ailton fala de Deus a cada nova frase. “Deus que me ajuda. Nosso Deus é de amor, é justo, é a favor dos injustiçados, e eu fui muito injustiçado na vida. Aquelas pessoas que diziam ‘aquele menino não vai dar em nada, não!’ me impulsionaram a vencer. Não sou rico, não tenho pais ricos, vim do nada e hoje tenho meu lugar. Muitos ventos ruins vieram, e eu não desisti”, testemunha o fiel da Igreja Universal há 16 anos. “Cheguei lá derrotado, no fundo do poço. Eu era o último da minha casa. Dos irmãos, era o mais esquecido, como na história do José do Egito”, comenta ele, dizendo-se abençoado e mostrando-se absolutamente esforçado. “Há mais de 70 dias, eu operei o tendão. O médico pediu para eu ficar 90 dias de repouso, mas com 14 já tive que sair da cama. É nosso esforço que faz o barco andar”, confirma o empreendedor também no setor alimentício. “Hoje eu tenho uma fábrica de picolé e uma lanchonete que vou abrir em setembro. Essa fábrica começou há quase dois anos, com cinco carrinhos, que comprei com nota promissória. Dos cinco, me roubaram três. Tudo no começo é uma luta. Hoje são dez carrinhos e duas fábricas, no Bairro Esplanada e no Centro”, ri Ailton, candidato a vereador em 2016, com 622 votos recebidos. “Muitos partidos me procuraram. Eu nunca pensei em ter cargo político, mas me convenceram de que eu poderia ajudar muito mais pessoas do que já ajudo”, conta o homem que, desde muito cedo, soube que para viver é preciso ter bravura para seguir.

Para Ailton sua perseverança é fruto da fé: “Muitos ventos ruins vieram, e eu não desisti”. (Foto: Fernando Priamo)

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