José Maria de Sá, suas duas rodas e muitas asas

Ele morava muito longe da escola, depois mudava-se a cada nova obra, hoje desloca-se com prazer sobre uma motocicleta. “Dá sensação de liberdade”, defende o presidente da Associação dos Motoclubes de Juiz de Fora

Por Mauro Morais

24/09/2017 às 06h30 - Atualizada 25/09/2017 às 14h10

José Maria trocou sua moto de 1.500 cilindradas por uma de 650 cilindradas, segundo ele mais confortável para viagens em nossas estradas tão cheias de buracos (Foto: Marcelo Ribeiro)

O morro para subir era bem, bem grande. A estrada de chão era longa. Era muita coisa para andar. “Era longe para danar!”. E o pequeno José Maria de Sá, com seus 8 ou 9 anos, seguia de bicicleta da Fazenda de Santana, onde vivia com a família, até a Escola Municipal Victor Belfort Arantes, em Sarandira, distrito de Juiz de Fora. “Meus pais tomavam conta de fazenda. Para estudar, a gente andava de sete a oito quilômetros de bicicleta, dava umas três horas”, recorda-se ele, que, mais tarde, já morando em Juiz de Fora, também montava no mesmo veículo para concluir o ginásio. “A gente morava numa fazenda para cima de onde é o Milho Branco, e eu ia de lá para a escola na Rua Bernardo Mascarenhas de bicicleta, uma hora ou mais para chegar. Sempre foi sofrido”, conta o homem, hoje aos 54 anos, nascido em Dores do Paraibuna, distrito de Santos Dumont, numa família de 13 irmãos, incluindo um gêmeo seu. “Minha vida, na realidade, começou em duas rodas. E melhorou, porque troquei a bicicleta por uma motocicleta.”

9.000km, – 6º e lágrimas nos olhos

A bordo da moto, José Maria alargou as distâncias. “Já fui a Bahia, Pirapora, Curitiba e outros lugares. Em 2013, nosso grupo saiu de Juiz de Fora, tocou até São Paulo e dormiu por lá. Depois fomos até Curitiba, passamos dois dias em Foz do Iguaçu. Depois fomos para o Paraguai, subimos até Paso de los Libres, na Argentina, que faz divisa com Uruguaiana. Chegando lá, o cara do hotel era motociclista. Fomos para ficar uma noite e passamos dois dias. Cada lugar tem sempre um amigo que nos acolhe. Fomos subindo e ficando dois dias em cada cidade. Essa viagem a Santiago do Chile foi a mais longa que fizemos. Nove mil quilômetros. Descemos as cordilheiras e pegamos seis graus abaixo de zero. Uma semana antes, estava 12 graus negativos. Para nós, motociclistas, o prazer é tanto que esquece até do frio. Vira criança. Começa a chorar e a rir”, conta o dono de uma Honda CG 150, para trabalhar e rodar pela cidade, e uma Suzuki DL650 V-Strom, para a estrada. Carro, só para dias de chuva. “Estou esperando me aposentar para fazer minha viagem do sonho, que é ir numa moto pequena, de 150 cilindradas, para o deserto do Atacama ou para as cordilheiras, sem dormir em hotel, sem nada. Tomando banho e montando barraca em posto de gasolina.” Moto, segundo o presidente do Motoclube Os Aventureiros e da Associação dos Motoclubes de Juiz de Fora , “dá a sensação de liberdade”. E também companhias. “O motociclista nunca está sozinho na estrada. Pode até sair da cidade sozinho, mas, na primeira parada, num posto, se estiver de colete, vai ter um amigo motociclista pronto para te acolher como se já te conhecesse há muitos anos. Nós mesmos já acolhemos um rapaz que estava vindo de Goiás. Quando passávamos pela estrada, no Santa Cruz, ele estava com a moto quebrada. Ficou uma semana hospedado lá em casa, até arrumar a moto. Virou um amigo. Motociclista é a família mais unida que existe hoje, porque em todo lugar tem um irmão.”

José Maria: “Motociclista é a família mais unida que existe hoje, porque em todo lugar tem um irmão.” (Foto: Marcelo Ribeiro)

Chão de terra batida, encostas e asfalto

Logo no primeiro ano do curso técnico em edificações e estradas José Maria precisou seguir outro rumo. Entrou para o exército, onde permaneceu por três anos, e foi trabalhar na construção civil. “Comecei em obra como servente, depois fui carpinteiro, mexendo em esquadria, passei a mestre de obras e era o mais novo em São Paulo e em Ouro Branco. Era o filhote. Minha vida sempre foi viajando, sempre trabalhei em construtora, em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais. Quando me casei, estava fazendo a obra da Cedae, em Miracema, no estado do Rio. Fiquei três anos nessa obra, botei águia na cidade inteira, fiz 14 mil metros de rede de captação do rio até a estação de tratamento e, depois, distribuição na cidade. Quando acabou essa obra, fui fazer a manutenção da estrada de Barbacena até a Fernão Dias. Conheço todas as estradas que saem na BR-265 a pé, porque fazia manutenção. Depois fiquei um ano e sete meses montando posto de gasolina. Onde tinha obra da Petrobras eu estava. Há 17 anos, eu passei num concurso da Prefeitura e, como era muito parado, pensei em arrumar alguma coisa para fazer. Foi assim que a moto surgiu na minha vida”, conta ele, aprendiz e mestre por excelência. “Sempre tive muita ajuda do pessoal de mais idade. Também ensinei muita gente a trabalhar. Hoje tenho serventes que são mestres de obras e passaram por mim. Sempre tive o carinho de ensinar, passar o que aprendi. A gente morava em alojamento, e eu me lembro de levar o projeto para ensinar os meninos a ler e entender os projetos.” Primeiro lugar no concurso de supervisor de obra, cuidando da área de manutenção de encostas e obras em área de riscos, José Maria aceitou um convite em 2000, quando já estava fixado em Juiz de Fora. Casado há 29 anos com Deuzimar, parceira constante na garupa, e pai do estudante de educação física Felipe, de 21, José Maria foi com a família conhecer Os Aventureiros. Surgia, então, a oportunidade de retomar o prazer que experimentava no tempo de criança, quando seguia para a escola montado em duas rodas.

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Alimentos não-perecíveis, capacete e barraca

A motocicleta funcionou como um espelho, a apresentar a imagem que José Maria reconhecia em si. “Motociclista é quem viaja, respeita as leis de trânsito, faz trabalhos voluntários para ajudar as pessoas. Toda vez que saímos para fazer uma viagem, para qualquer lugar, pensamos primeiro na segurança, capacete, luva, calça de proteção, jaqueta”, comenta ele, que conheceu, ainda, a união e a informalidade que sempre pautou sua vida. “Gosto de viver no meio do pessoal. Gosto de ficar em área de camping. Em hotel, não tem graça, porque fica sozinho. Encontrar amigos é o verdadeiro espírito do motociclista.” Do próximo dia 29 a 1º de outubro, no Parque de Exposições, José Maria e a associação que preside recebem amigos feitos no asfalto, no IV Encontro Nacional de Motociclistas de Juiz de Fora, que conta com exposição de motos, apresentações, shows, com caráter beneficente – os ingressos são trocados por 2kg de alimento não perecível. “Fazemos muitas campanhas para ajudar abrigos, arrecadando alimentos. No ano passado, a gente fez o encontro, recolhemos 1.300 quilos de alimentos e doamos para o Bairro São Geraldo, para a APAE de Santos Dumont, para a Sopa dos Pobres e para uma igreja no Jardim Cachoeira”, recorda-se o homem simpático, de sorriso fácil, adorador do rock nacional, muito distante da figura dark que as roupas pretas e os brasões inspiram, mais próximo do anjo do que da caveira. “Sempre gostei de ajudar o próximo. E a moto me permite isso”, confirma.

José Maria é presidente d’Os Aventureiros e da Associação dos Motoclubes de Juiz de Fora, que organiza nos próximos dias 29, 30 e 1º, o IV Encontro Nacional de Motociclistas de Juiz de Fora, no Parque de Exposições. (Foto: Marcelo Ribeiro)

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