Não há mais espaço para aulas chatas

Na terceira reportagem da série “Educa+”, o desafio é mostrar que a fórmula professor ensina e aluno aprende está desgastada. Projetos como o Jovem Pesquisador, da Academia, são alternativas para despertar interesse

Por Carime Elmor

16/08/2017 às 07h00 - Atualizada 15/08/2017 às 20h37

Laura Mattos, Marina Paschôa e Valentina Lima, alunas do 7° ano, apresentaram pesquisa sobre reciclagem do isopor em projeto paralelo do Colégio Academia (Foto: Marcelo Ribeiro)

“R.I.P aulas chatas” é uma frase utilizada na página do Extramuros, projeto fundado por Gustavo Brito, fazendo referência à expressão “Rest in Peace”, que aparece escrita nas lápides dos cemitérios americanos. Traduzindo para o português, seria: “descanse em paz”. No caso das aulas, em pleno século XXI, a ideia é ressaltar a necessidade de dar fim àquelas que são monótonas e pouco atrativas.

Gustavo é mestre em sociologia pela Universidade de Paris, foi professor em sala de aula diversas vezes e hoje oferece consultoria em inovação pedagógica para escolas e empresas. Além disso, ele escreve diariamente artigos e reflexões sobre educação e inovação em seu Medium. O projeto que falei acima é uma proposta de ‘escola dentro da escola’, conectando alunos, pais e professores. É um manifesto para que a educação se torne um bem-estar, uma proposta de aprendizagem com afeto, vida e transversalidade: autonomia, colaboração, tomada de decisão, criatividade e autoconhecimento, são algumas das palavras chaves dessa visão. O Extramuros funciona como uma escola de projetos e aprendizagem espontânea que pode ser instalada dentro de uma outra escola, com modelos convencionais, a partir de tutorias, mentorias e oficinas extraclasse.

Gustavo também é coordenador de conteúdo da Laje, no Rio de Janeiro, onde busca, por meio do conceito de ‘design thinking’, desenvolver novos modelos educacionais. Quando retornou ao Brasil, após seu período na França, voltou a lecionar e começou a refletir. Sentiu um incômodo físico e uma inquietação filosófica: “Isso aqui não faz sentido, não funciona mais. É o retrato da nossa sociedade doente”, diz, fazendo uma analogia aos métodos de ensino adotados pela maioria das escolas.

Dois conceitos chaves que ele aborda em suas palestras, que já passaram pelo Tedx – conferências que ocorrem ao redor do mundo para disseminar boas ideias – e Instituto Millenium, são acerca da “descolonização” e “desprogramação” dos alunos. Defende uma educação centrada nos usuários, ou seja, nos discentes, e um sistema menos responsivo e mais reflexivo. Mas como começar a aplicar soluções palpáveis e viáveis em escolas com currículo e metodologias “tradicionais”? Bom, o primeiro passo, segundo ele, é perceber com veemência que modelos educacionais ultrapassados já não funcionam mais para o aprendizado.

“Olhando para formatos novos de sala de aula, reposicionando o professor neste espaço. Disseminando conteúdo por meio de uma lógica de projetos. É preciso sentir-se verdadeiramente incomodado e ter coragem para abandonar o controle. E, fundamentalmente, é preciso assumir que tudo na educação é experimento. Os seres humanos não são objetos, e os colégios não são fábricas, não podemos prever o que será produzido”, explica Gustavo, defendendo que não é preciso destruir o que já existe, mas aprender e fazer melhor, “como uma evolução e não revolução”, completa.

Soluções viáveis para se inovar

Um dos exemplos que Gustavo Brito traz como possível e viável de ser aplicado é o sistema de “escola paralela”. Em uma instituição do Estado do Rio de Janeiro, alguns professores – inquietos – se uniram e implantaram um modelo de educação paralelo às aulas do currículo convencional. Ou seja, mantiveram o que já é ofertado pela escola, mas se propuseram a experimentar novas formas de aprendizado com os alunos e horários extraclasse.

Segundo Gustavo, os professores conseguiram transformar a relação dos alunos e professores, contagiando a escola, e, apesar de usarem a estrutura do colégio, tiveram autonomia e liberdade. As ideias foram influenciadas pela dinâmica da Escola da Ponte, em Portugal, que não é organizada por séries. Alunos com interesses em comum, de idades diferentes, se unem para realizar projetos e possuem muito mais autonomia, um aprendendo com o outro. Sem a figura de um único professor, mas “orientadores educativos” que os apoiam nos projetos pedagógicos, unindo diversas áreas para além do currículo tradicional.

Gustavo Brito faz uma analogia entre as salas de aulas vazias com um canal de TV que ninguém mais se interessa por assistir. E defende o estímulo à criatividade como o motor da inovação, e a inovação como um método de sobrevivência, que faz com que nossa existência enquanto seres humanos seja vivida de forma mais longa e proveitosa, partilhando de experiências pessoais e coletivas. “Eu acredito que nós temos várias ferramentas de sobrevivência (física, matemática, história, geografia). Outras ferramentas de sobrevivência foram negligenciadas, como o diálogo (desaprendemos a ouvir o outro) e a criatividade.”

Projeto Jovem Pesquisador busca garantir autonomia a estudantes

Nickolas Brandão e Francisco Bara foram a quitandas, mercados e feiras pesquisar preços de alimentos para o trabalho do Jovem Pesquisador (Foto: Isabel Pequeno)

Alguns professores do Colégio Academia, do Núcleo de Ciências e Biologia, observaram e captaram os anseios de alunos em sala de aula, e, a partir daí, propuseram uma tarefa paralela ao cronograma da escola, uma instituição tradicional e que existe há mais de um século na cidade. “A gente pensou e viu que os alunos têm um acúmulo de conhecimento, mas é um conhecimento trazido pronto pelo professor. E aí veio essa ideia: porque não deixamos que busquem o conhecimento e, a partir dessa busca, criar conceitos, difundi-los, a fim de melhorar a condição de vida, ambiental e social”, afirma o coordenador e professor da área de ciências e biologia da Academia, Fernando Amarante. “Hoje a aula dinâmica se transforma em conhecimentos trocados”, diz.

O conteúdo continua após o anúncio

Iniciação científica nas escolas não é novidade, e, inclusive pode se tornar exaustivo e desinteressante aos alunos. Não é isso que os professores buscavam. Uma decisão crucial foi a de livrar a obrigatoriedade dessa tarefa. Quem fez foi porque estava a fim, de forma voluntária. Além disso, nenhum tema foi proposto, os alunos chegaram com as questões que tinham mais curiosidade em desenvolver. O projeto Jovem Pesquisador buscou garantir autonomia aos estudantes, para que se sentissem capacitados em produzir conhecimento e buscarem, sozinhos, soluções. Sempre antenados a um problema real da sociedade, o que garantia mais relevância aos testes e resultados. “Eles tinham que buscar informações reais, trazer novas informações e de grande valia em termos de serem novas pesquisas. Então a gente queria, também, uma coisa inédita. Para que não fosse uma coisa pronta, que ele já traria de um conhecimento de outras pessoas”, diz Amarante.

Nickolas Brandão e Francisco Bara, ambos com 12 anos de idade e alunos do 7° ano do ensino fundamental, fizeram uma pesquisa com enfoque sobre o que alunos da Academia mais consomem na hora do recreio e quanto gastam com seus lanches. A partir de uma amostra real, possível de ser analisada e testada, aplicaram questionário para 90% dos alunos do 6° ao 9° do ensino fundamental do turno da tarde. Além disso, escutaram profissionais da área de nutrição para embasar seus argumentos e foram às ruas visitar estabelecimentos como feiras, mercados e quitandas para comparar os preços dos alimentos.

Assista ao vídeo sobre o Jovem Pesquisador:

Os resultados que descobriram serviram de impacto para a mudança de hábito de alguns alunos. Além disso, entenderam o passo a passo de uma pesquisa científica. “Aprendi que tenho que levar mais fruta para a escola, porque, antes do Jovem Pesquisador, não levava nada saudável. Aí comecei a pedir para a minha mãe comprar coisas mais saudáveis e baratas”, diz Nickolas Brandão.

Fernando leciona há 20 anos, passando por gerações com comportamentos e maneiras de pensar diferentes. Para ele, o professor precisa fazer o papel de ‘estimulador’ para que a turma se desenvolva.

“A gente começa sempre pela situação-problema. A partir dessa situação, você tem a divisão dos grupos que vão pensar a respeito, e a gente vai elaborar um conhecimento juntos. É uma criação do conhecimento, e não mais a passagem do conhecimento, porque isso não existe mais. Conhecimento está disponível em todas as redes. Eu tenho que fazer com que ele saiba procurar esse conhecimento e se inteirar das situações reais do planeta, da vida social, econômica.”

Um outro grupo, formado por Laura Mattos, Marina Paschôa e Valentina Lima, todas também com 12 anos de idade, estudou sobre o isopor, descobrindo porque não se pode mais utilizá-lo em trabalhos da escola e, também, desvendando utilidades do material quando é reciclado, podendo se tornar, por exemplo, concreto. “Achei muito interessante porque a gente tinha que fazer o passo a passo até achar o resultado. É diferente dos outros trabalhos, quando normalmente eles já dão um tema, e a gente tem que seguir aquilo. Esse foi diferente de tudo que a gente já fez”, afirmou Marina. Ela ainda disse que se sentiram animadas em poder fazer um projeto que foge ao usual da escola. “Ao fazer coisas diferentes, a gente acha aquilo mais interessante. Então a gente se aprofunda, pesquisa mais, lê mais. Então, acho muito interessante não ficar preso só na sala de aula com livro, caderno”.

Sobre o Jovem Pesquisador, o professor Amarante atenta para a proposta não se configurar em um molde de trabalho com uma resposta pronta. “Os meninos, muitas vezes, não sabiam onde iam chegar. Eles viram uma situação – problema [de saúde e alimentação na escola] e chegaram na formação do trabalho. A partir daí, encontraram as respostas.” Para estimular os alunos, o Jovem Pesquisador terá uma premiação para os melhores trabalhos. Os vencedores ganharão um microscópio digital, óculos 3D e livros. Todos os participantes receberão os certificados.

 

Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia