Motocicletas customizadas ganham as ruas de Juiz de Fora

Expressão da kustom kulture, motos representam uma virtual simbiose entre homem e máquina

Por Wendell Guiducci

28/09/2017 às 07h01 - Atualizada 28/09/2017 às 08h10

O fotógrafo Daniel Zinato em sua brat style nascida de uma Honda CB 400 (Foto: Daniel rdzr)

Quando comprou uma Honda CB 400, ano 1982, o fotógrafo Daniel Zinato, 30 anos, já sabia muito bem o que queria: transferir para ela sua própria personalidade, expressar sua individualidade com uma nova pintura, um novo banco, um novo farol… uma nova motocicleta, enfim. Junto com o customizador Paulo Henrique Silveira, da Hot Silveira Customs, Daniel decidiu que a moto seria uma brat style – um entre os vários estilos possíveis. E não há em Juiz de Fora circulando uma única motocicleta igual à de Daniel. Esta é a ideia central da customização: exclusividade.

Paulo Henrique se considera um artesão, não um fabricante. Era funileiro de automóveis contemporâneos, mas aquilo não o satisfazia. Partiu para carros antigos. Depois, um cliente pediu para fazer um escapamento – que ele não sabia fazer. “Fiz. Daí pediram um paralamas. Depois, a restauração de uma vespa. E quando vi já estava customizando motocicletas”, rememora Paulo, que ainda hoje trabalha em automóveis antigos e bicicletas extraterrestres, como indica seu galpão cheio de caminhonetes e magrelas de formatos sui generis.

Oficina Hot Silveira Customs, onde Paulo Henrique cria seus “artesanatos” (Foto: Daniel rdzr)

Para Paulo Henrique, como Daniel, veio pela internet o acesso à kustom kulture – a cultura da modificação de itens originais em busca de uma identidade exclusiva, verdadeiro estilo de vida para alguns artistas, mecânicos, tatuadores, estilistas e toda sorte de gente. “Quando comecei a me interessar não havia quase nada no Brasil, eu nem sabia onde fazer a minha moto até conhecer o Paulo”, conta o fotógrafo. A realidade, hoje, já é outra, embora não exista ainda um número expressivo de motos customizadas rodando na cidade. E não é que não haja modificação. O que falta, na visão de Paulo Henrique, é trabalho artesanal.

A motocicleta tem que ficar com a cara tanto do customizador quanto do cliente. É um trabalho manual e individualizado. E, embora em Juiz de Fora haja motos alteradas andando por aí, a maioria é feita com peças industrializadas. E isso não é customização, porque não é artesanal.

Paulo Henrique Silveira, customizador

 

Extensão de si

O tatuador Elisandro Calheiros comprou uma Triumph Boneville T100, ano 2009, em São Paulo. Acostumado a customizar corpos alheios, decidiu mudar sua moto também. Na Pauliceia mesmo levou a máquina para a Custom Spades, tradicional oficina paulistana, onde começou o serviço. De volta a JF, queria uma grade para o farol e acabou conhecendo Paulo Henrique. E foi aí que mexeu mais ainda. “Só não troquei o tanque”, lembra Elisandro, que participou de todo o processo de transformação da Boneville em uma scrambler invocada. Hoje parceiros, Paulo Henrique e Elisandro customizaram uma Honda ML 1986. Nasceu uma cafe racer. “Comprei para andar no dia a dia, é uma moto leve, que gasta pouco… mas tinha que ter a minha cara. Acho que a customização é sobre isso. Quem customiza quer que a motocicleta seja uma extensão de si mesmo.”

Honda ML transformada em uma cafe racer (Foto: Elisandro Calheiros)

Paulo Henrique não sofre muito com as nomenclaturas que às vezes confundem a cabeça dos iniciantes: brat style, cafe racer, scrambler, rat bike, bobber, tracker, chopper… para ele, cada moto indica a própria direção da customização. “Tem um modismo por trás disso. ‘Ah, se colocar o banco assim não é mais cafe racer, brat não pode ter farol tal e tal…’ acho bobagem. O importante é que moto tenha a identidade do dono e do customizador, e que o trabalho seja essencialmente artesanal.”

 

Segurança primeiro

Mas não seria muito arriscado alterar as configurações originais de uma motocicleta, um veículo cujo “para-choques é o queixo”, como reza o dito popular? Paulo Henrique adverte: cada moto tem suas limitações. “É preciso muito cuidado. Uma solda mal feita pode rachar, um quadro que não condiz com as características originais da moto pode quebrar. O motociclista está certo em se preocupar. O importante, tanto para o dono quanto para o customizador, é respeitar as características do veículo. Não dá para sair fazendo qualquer coisa de qualquer maneira.”

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Pode ser muito arriscado sim, se não houver muito conhecimento do que está sendo feito.

Douglas Studzinski, administrador do grupo Cafe Racer Brasil

Douglas Studzinski, que mantém o blog Garagem Cafe Racer e administra o grupo Cafe Racer Brasil, que tem quase 50 mil membros no Facebook, faz coro com Paulo. “Pode ser muito arriscado sim, se não houver muito conhecimento do que está sendo feito. Eu mesmo, no meu projeto (uma Honda CB 400), não alterei partes que façam diferença na ciclística da moto (ângulo de caster, amortecedores, refazer todo chassi etc). Pois isso é necessário alguém realmente capacitado. Mas, no geral, pequenas modificações, como alterar a extremidade traseira do chassi, mudar algum suporte de banco ou mesmo algum componente menor de lugar, não trazem riscos consideráveis.”

Douglas Studzinski, administrador do grupo Cafe Racer Brasil, e sua Honda CB 400 em fase de customização

 

É legal?
Muitos adeptos da cultura custom não conseguem legalizar suas motos. A portaria 60/2017, publicada pelo Contran em abril e válida desde 1º de agosto deste ano, “considerando a necessidade de atualização da tabela de modificações permitidas em veículos”, define os tipos de alterações e suas respectivas aplicações e exigências. Até aí, tudo bem. O problema, e nisso concordam Paulo Henrique e Douglas Studzinski, são os parâmetros de avaliação utilizados pelos vistoriadores. “Não é uma inspeção especializada, varia de estado para estado, de fiscal para fiscal, e isso dificulta bastante na hora de regularizar as modificações”, observa Paulo.

Triumph Bonneville T100 virou uma scrambler (Foto: Elisandro Calheiros)

“O Brasil é um país muito complicado em relação a isso”, continua Douglas. “Melhorou muito de um tempo para cá, a regra está um pouco mais clara, mas ainda longe do ideal. A interpretação pelos profissionais envolvidos varia muito de um local para outro. Em certas cidades praticamente pode tudo. Em outras, a leitura é mais rígida.” Ciente do que poderia ou não fazer de modificações em parceria com Paulo Henrique, Elisandro não teve problemas para regularizar com suas motos. “Só a inclinação da placa de uma delas e mais nada.” E o fotógrafo Daniel Zinato, ansioso por botar sua CB para rodar, espera ir pela mesma estrada.

 

 

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