O artilheiro ensaboado

Por Tribuna

01/11/2016 às 07h00 - Atualizada 31/10/2016 às 20h03

Magro, nem tão esguio para um centroavante, destro, canelas finas, barba mal feita e uma capacidade ímpar de guardar a bola dentro das redes. O liso atacante Sabão, como era conhecido pela facilidade que tinha de escorregar dentro e fora do campo, nem era tão afortunado do talento, mas fazia sempre a graça para a torcida do Pedra Azul Futebol Clube: gols.

Político também fora das quatro linhas, após os jogos, o atacante ia para a praça da cidade, em frente à igreja, participava das resenhas sobre o jogo do fim da tarde, debatia sua atuação, justificava as partidas ruins com uma dorzinha na perna, ou um calo no pé, e depois seguia para a última missa, a hora que ganhava a simpatia de todas as beatas daquela cidade do interior.

Com sorrisos, prosas e gols, Sabão ajudou o time a chegar à primeira divisão do estado e virou um mito no município de Pedra Azul.

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Durante os anos que vestiu a camisa anil do clube, na primeira divisão do estadual, Sabão mudou, ficou marrento. A resenha da praça ele trocou pelos vinhos dos restaurantes, a missa perdeu vez para o passeio no seu carrão importado e o sorriso no rosto deu lugar a um olhar fixo no horizonte. Nada o bastante para abalar a confiança dos dirigentes, ele ainda fazia os seus gols, e muito menos dos torcedores, Sabão recusava propostas da capital, sabia que no município de Pedra Azul ele sempre seria o rei e isso lhe dava moral com a torcida celeste.

Depois de alguns estaduais, o atacante encerrou sua carreira precocemente, após uma contusão mais séria no joelho, naquela pelada de fim de ano, já meio tonto de vinho, foi fazer uma graça e torceu “pra romper os ligamentos e cair no chão” como ele contava a todos, as línguas fofoqueiras da cidade diziam que ele tinha escorregado na própria soberba. Sem técnico para o certame no ano seguinte, Sabão foi consenso, assumia a missão de comandar o time até levá-lo em uma campanha pífia a segunda divisão novamente. Assim como Sabão, o Pedra Azul caía e o ex-atacante, agora treinador, respondia a imprensa: “Se eu estivesse em campo, o Pedra Azul não desceria”. Ensaboado que era, não foi cobrado, todos concordavam com a palavra do rei do clube. O Sabão era mais duro que o “Pedra” e dali ninguém o tirava.

Tribuna

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