“Star Trek: Discovery” é a coisa “marlinda” que existe

Por Júlio Black

27/09/2017 às 07h02 - Atualizada 26/09/2017 às 16h15

Oi, gente.

A coluna desta semana foi escrita menos de 24 horas depois de assistirmos aos dois primeiros episódios de “Star Trek: Discovery”, a primeira série da franquia em mais de 15 anos. Por isso, não espere uma análise fria, calculista e cirúrgica deste seu ah migo: desta vez, seremos totalmente emocionais, tomados pela euforia trekker de ter nosso universo favorito de volta à televisão, terreno onde ela surgiu, plantou suas sementes (séries derivadas, filmes) e conquistou milhões de fãs, seguidores, formou gerações de cientistas, astronautas, físicos, o diabo a quatro.

Para quem mistura alhos com bugalhos por pensar que “Star Trek” e “Star Wars” são a mesma coisa, pode não fazer diferença; mas, para nós, trekkers, são quase duas décadas desde o lançamento da subestimada “Star Trek: Enterprise”, e 12 anos desde o último episódio com a tripulação comandada pelo capitão Jonathan Archer. Foi o maior hiato desde a estreia da “Nova Geração”, em 1986, quando tivemos quase 20 anos seguidos com alguma coisa de “ST” na TV.

Por isso, quando anunciaram ano passado a criação de uma nova série da franquia (vale sempre ressaltar que os mais recentes filmes se passam em uma realidade alternativa, mesmo que os fãs mais talibãs sejam incapazes de compreender isso), foi um auê daqueles na comunidade trekker – era “Star Trek” de volta à TV, e ainda por cima com apenas um dia de diferença em relação aos EUA! E na Netflix! E com uma premissa promissora: protagonista negra (e que não comanda uma nave estelar), os klingons como os principais antagonistas, uma espaçonave que não era a Enterprise velha de guerra e uma história que se passa antes dos eventos da Série Original. Difícil foi ter que esperar tanto tempo, ainda mais com os adiantamentos do lançamento da primeira temporada.

Mas aí chegou o tão esperado e sonhado 25 de setembro, e lá fomos nós assistir. Logo de cara deu pra pescar os detalhes que a CBS/Netflix não revelaram. A história é situada uma década antes das aventuras da Enterprise do capitão Kirk e terá como base a guerra entre a Federação dos Planetas Unidos e o Império Klingon, tanto que os primeiros episódios mostram o estopim do conflito, após um século de animosidade entre as duas partes.

A personagem principal é Michael Burnham (Sonequa Martin-Green, de “The Walking Dead”), a segunda em comando na USS Shenzhou, liderada pela capitão Philippa Georgiou (Michelle Yeoh, de “O Tigre e o Dragão”). Burnham teve os pais mortos pelos klingons e foi adotada por Sarek (James Frain, de “Gotham”), pai de Spock, e é a primeira humana a se formar na Academia da Frota Estelar e na Academia de Ciências de Vulcano. Por isso, ela se divide entre os instintos e as emoções humanas e a lógica vulcana, o que resulta em uma série de conflitos com sua comandante. São as duas, mais a tripulação da Shenzhou, que travam o primeiro – e nada amigável – contato com os klingons na série, que vai resultar em uma trágica batalha entre várias naves da Frota Estelar e do Império Klingon. Muita coisa acontece nos dois primeiros episódios, que destoam sensivelmente do ritmo lento que sempre marcou as produções “ST” para a televisão, e mais não contamos por falta de espaço e porque não gostamos de dar spoilers.

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Mas podemos afirmar: que coisa mais linda de se assistir, minha gente. Visualmente, então, é aquilo que sempre sonhamos ver em “Star Trek”: o espaço sideral em toda a sua grandiosidade; naves de todos os tipos e tamanhos, em ângulos de câmera que são possíveis apenas com o CGI; explosões realistas; a viagem em dobra espacial que não se resumia em ver pontinhos de luz cruzando a tela. E os klingons, meu povo? Pela primeira vez temos os aliens feiosos conversando em sua língua nativa em tempo integral (e a Netflix disponibilizou legendas em klingon para as partes em inglês!), com um visual diferente para cada uma das 24 Casas que compõem o Império. Dá para perceber nos detalhes a preocupação dos produtores em utilizar o orçamento para criar algo que nunca se viu na franquia.

A história promete, e muito. A guerra entre os klingons e a Federação sempre fez parte do cânone, mas nunca foi mostrada pra valer. Por isso, é um acerto dos produtores dedicar uma série ao conflito e não repetir a fórmula surrada de um planeta diferente por semana. E a “metáfora dos tempos atuais” está lá: se a Série Original refletia os tempos de Guerra Fria, “Deep Space Nine” surgiu dos escombros do Muro de Berlim e “Enterprise” era reflexo do pós-11 de setembro, “Discovery” serve como reflexão para a América governada por Donald Trump. É possível perceber isso no discurso do klingon T’Kuvma (Chris Orbi, de “Doctor Who”), que culpa a Federação pelo declínio do Império e promete “fazer o Império Klingon grande novamente” (não exatamente com essa palavras, mas a mensagem é clara), ou quando diz que a Federação está “muito próxima” da fronteira klingon.

“Star Trek: Discovery” segue a tendência da TV e das audiências que temos no século XXI, em que a ação tem que estar, no mínimo, no mesmo patamar de importância da trama. Mas, pelo que vimos nos dois primeiros episódios, ela mantém a essência daquilo que Gene Roddenberry criou há mais de 50 anos, porém adaptada aos novos tempos, revisitando o cânone da franquia e com o dinheiro que faltou nos anos 60 para criar um visual exuberante, tirando o ar mambembe dos cenários quando vistos com o olhar de quem viveu sob a influência do CGI.

É uma série para fazer os trekkers felizes, conquistar novos fãs e levar “Jornada nas estrelas” aonde ela ainda não esteve – e sempre precisou ir.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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