“The handmaid’s tale” e as barbaridades em nome de Deus

Por Júlio Black

26/07/2017 às 07h02 - Atualizada 26/07/2017 às 07h32


Oi, gente.

Esta semana vamos falar um pouco mais sério que o normal. Nós, muitas vezes, nos perdemos em nosso mundinho de redes sociais, memes, vídeos de gatinhos, como válvula de escape para tanta coisa ruim que acontece no mundo. No máximo, nos compadecemos com ataques terroristas ocorridos na França, Inglaterra, Estados Unidos, mas ignoramos o que se passa em locais mais distantes e muitas vezes pouco atraentes aos olhos acostumados ao glamour de NY, Londres, Paris. Estou falando do Afeganistão, Iraque, Síria, Nigéria, Sudão do Sul, Arábia Saudita, em que todo tipo de desgraça acontece: atentados terroristas que explodem dezenas e centenas de pessoas, execuções públicas, mulheres torturadas, escravizadas, privadas de seus direitos e humanidade por toda sorte (azar?) de fanáticos religiosos, com o perdão do pleonasmo. Sim, pleonasmo. Lugares em que o pior do ser humano aparece com a desculpa de estar a professar sua fé.

Enfim, são horrores que ignoramos porque não são manchetes nos telejornais, nos portais de notícias, pois 150 mortos em Mossul “valem menos” como notícia que meia dúzia de esfaqueados em frente aos cartões postais de Londres, uma das capitais do “mundo civilizado”. Mas e se essa realidade estivesse mais próxima de nós, se os Estados Unidos, por exemplo, se tornassem uma espécie de sede de um “talibã protestante”? Ficaríamos tão impassíveis assim? E se tivéssemos, aqui no Brasil, um regime teocrático que tirasse todos os direitos das mulheres, condenasse à morte homossexuais, adúlteros, judeus, cientistas, padres, médicos e movimentos pró-aborto, que impusesse sua leis e sua fé distorcida por meio da força, medo e intimidação? Como seria viver num inferno em vida?

Pois bem, ah migos e ah migas, essa coluna de ar tão sombrio tem motivo. Terminei de assistir na última semana à primeira temporada de “The handmaid’s tale”, série da dobradinha Hulu/MGM ainda inédita no Brasil. A produção adapta para a telinha o livro “O conto da aia”, da canadense Margaret Atwood, lançado em 1985 e que voltou a ganhar destaque com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, assim como ocorreu com o “1984” de George Orwell. Afinal, ambas histórias trabalham com um futuro distópico em que a perda do individualismo, da independência e da liberdade em todos os seus aspectos torna-se a regra.

Ainda não tive a oportunidade de ler o livro (o que agora quero fazer para ontem), mas “The handmaid’s tale” não poderia ser mais atual e absurdo ao retratar nos anos 80 um futuro em que as forças do atraso, do obscurantismo, tivessem tanto poder para oprimir aquilo que consideram ofensivo única e exclusivamente por não saber respeitar as diferenças. O mais chocante, talvez, seja imaginar que isso possa acontecer em qualquer país civilizado, inclusive nos Estados Unidos. Assim como tantos outros países, a América sofre com os efeitos da poluição, do aquecimento global e a onda de infertilidade entre as mulheres, que reduz de forma dramática o número de nascimentos – sendo que boa parte dos bebês morre de forma precoce.

O cenário faz com que um grupo de fanáticos religiosos, os Filhos de Jacó, acredite que tudo o que acontece é um castigo divino contra a humanidade, mergulhada em ganância, promiscuidade e outros pecados. Eles planejam e realizam, com sucesso, uma série de atentados que culminam com os assassinatos do presidente, do Congresso e da Suprema Corte, jogando a culpa nos fanáticos islâmicos pelos ataques. Não demora muito para conseguirem que a Constituição seja suspensa, a Lei Marcial aplicada e lançam uma ofensiva militar que promove um golpe capaz de se apoderar de 48 dos 50 estados americanos. Apenas o Alasca – onde o governo central dos EUA se instala numa espécie de “exílio” – e o Havaí ficam de fora.

Apesar de ainda haver resistência, os Filhos de Jacó vão impondo à força seus planos de dominação. Eles rebatizam o país como República de Gilead e tomam como “constituição” a Bíblia, principalmente o Antigo Testamento. Quem tem sorte consegue fugir, geralmente em direção ao Canadá, mas quem ficou vai sofrer com o fundamentalismo religioso dos novos governantes.

E quem mais vai padecer nas mãos desses loucos são as mulheres, e é isso que deixa “The handmaid’s tale” com um gosto ainda mais amargo. No início elas são proibidas de trabalhar, ler, têm suas contas bancárias congeladas e são determinadas, por lei, a serem tuteladas pelos maridos. Todo e qualquer direito da mulher é abolido, a exemplo das mais brutais sociedades patriarcais. Coisa medieval, mesmo.

Mas ainda piora. Todas as mulheres férteis passam a ser consideradas propriedades do Estado e são retiradas de seus lares para serem “reeducadas” a fim de servirem aos Comandantes, a elite política, militar e econômica de Gilead. E “servir” é um termo eufemístico, porque elas estão ali para servirem de “reprodutoras” dos Comandantes que têm esposas inférteis. Colocando em bom português: escravas sexuais de um regime totalitarista religioso, que faz com que elas sejam estupradas todo mês, durante seu período fértil, durante “cerimônias’ em que pousam suas cabeças no colo das esposas enquanto são calmamente estupradas pelo chefe da família.

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Foi essa parte, em particular, que me deu uma agonia tão grande que a vontade foi de abandonar a série após o segundo episódio. Apesar de não ser como a selvageria relatada nos países da África ou do Oriente Médio, a forma como as mulheres são tratadas no seriado é tão revoltante que provoca no espectador todo tipo de sentimento ruim, um desprezo tão grande pelo que o ser humano é capaz de fazer ao seu semelhante que é impossível acreditar que possamos nos considerar civilizados.

Porque as aias, com suas roupas vermelhas, suas botas, os chapéus que dificultam a visão dos rostos, a falta de liberdade, sua objetificação, as orelhas marcadas feito gado, são transformadas em cidadãs – se é que podemos pensar nesse termo para elas – de última categoria, a mais baixa casta de Gilead, apesar de todo o discurso da “importância divina” do que elas fazem pelo bem do país. Afinal, aquelas que ousam desobedecer às leis poder ficar cegas de um olho, perder um membro ou coisa pior. Ao mesmo tempo, à medida em que a história se desenrola, percebemos que o discurso religioso-radical dos Filhos de Jacó é muito bom para oprimir as mulheres – principalmente as férteis -, mas cheio de áreas cinzentas para os homens.

E quem brilha nessa história é Elisabeth Moss, a Peggy de “Mad Men”, que interpreta a protagonista, June, que é obrigada a adotar o nome Offred ao servir ao Comandante interpretado por Joseph Fiennes. Ela é nossa guia nesse mundo de horror ao relatar sua história, lembrando do mundo como era antes de Gilead e tudo que ela passou a sofrer. A interpretação é ainda mais destacada porque a série dá destaque aos closes no rosto de sua personagem, que estampa todo o horror, incredulidade, desespero, exasperação, raiva, desânimo, alguma resignação, esperança, rancor e desamparo de Offred. Esses momentos são postos em contraste com os flashbacks, que mostram June como uma feliz funcionária de editora, casada e com uma filha, num país que respeitava as liberdades individuais.

O restante do elenco também está à altura, com destaque para Yvonne Strahovski, Amanda Brugel (“Orphan Black”), Ann Dowd (“The leftlovers”), Samira Wiley (a Pussey Washington de “Orange is the new Black”) e Alexis Bledel (a Rury Gilmore de “Gilmore girls”). Com elas é possível entender ainda mais a complexa e cruel estrutura social e de poder em Gielad, com mulheres capazes de oprimir seus pares de gênero por conta de suas crenças, resignação ou necessidade de manter o pouco poder que tenham.

“The handmaid’s tale” não é uma série fácil de assistir. É daquelas produções que te pegam pelo estômago e deixam uma sensação terrível de impotência e raiva diante de um mundo tão injusto e cruel, principalmente com as mulheres e outros grupo considerados “inadequados”. Mas é um grande programa de televisão, com dramaturgia, história e personagens tão poderosos que vale a pena aguentar o pior que existe no coração dos homens só para redescobrir, lá no fundo, mas no fundo mesmo, que ainda há algo que preste na humanidade. Que existe gente neste mundo que não vai deixar o mal, a intolerância e obscurantismo, em todas as suas formas, prevalecerem. Precisamos acreditar nisso, senão a vida seria intolerável.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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