Na mira do Justiceiro

Por Júlio Black

18/10/2017 às 10h20 - Atualizada 18/10/2017 às 10h20


Oi, gente.

Juro por tudo que há de mais empírico nesta vida que iniciei a leitura de “Guerra Civil 2” para fazer a devida resenha, mas a história é chata. Muito Chata. Principalmente as histórias secundárias. Daí que prefiro que privilegiar meu escasso tempo lendo coisas mais interessantes, como os encadernados de “Justiceiro MAX” da dupla Jason Aaron e Steve Dillon que a Panini terminou de publicar no Brasil (mas prometo que um dia voltarei a “Guerra Civil”).

O Justiceiro sempre foi dos personagens mais interessantes da Marvel, por toda a sua pegada e um quê de “Desejo de matar” (ao Google, meninos e meninas) que Frank Castle sempre carregou. Afinal, é um cara sem nenhum tipo de superpoder que decide exterminar todos os criminosos que encontra após sua família ser assassinada devido a um confronto de mafiosos. Bem verdade que no início ele era mais um coadjuvante do Homem-Aranha, sem tanta profundidade, até ser agraciado com sua própria revista lá em meados dos anos 80.

E que ficou ainda melhor quando ganhou, na década passada, títulos nos selos Marvel Knights e MAX, com histórias mais realistas, pé no chão, para leitores adultos – e sem ter que se preocupar com a continuidade Marvel -, a maioria delas escrita pelo iconoclasta irlandês Garth Ennis (foram 60 das 75 edições com sua assinatura). No caso de “Justiceiro Max”, Ennis fez com que Frank Castle envelhecesse à medida em que o tempo passava, ao contrário da eterna fonte da juventude das HQs tradicionais.

Quem continuou a série em sua nova encarnação – e com numeração zerada – foram Jason Aaron (“Escalpo”, “Thor”) e Steve Dillon, que havia trabalhado com Ennis nas histórias do Justiceiro no Marvel Knights. A série teve 22 edições entre 2010 e 2012 e seguiu a ideia de Garth Ennis, mostrando agora um Frank Castle ainda mais velho (na verdade um sexagenário) e no combate selvagem e sem fim aos criminosos.

A publicação rendeu quatro arcos: “Rei do Crime”, “Mercenário”, “Frank” e “Desabrigado”. O primeiro mostra a ascensão de Wilson Fisk, um criminoso de segunda linha, ao posto de chefe supremo do crime em Nova York; o segundo é dedicado ao embate entre o Mercenário e Justiceiro; no terceiro, Frank Castle está preso e precisa lidar com todos os criminosos presos por sua causa, ao mesmo tempo em que muito do seu passado é revelado; por fim, o último arco tem o Justiceiro novamente nas ruas, desprovido de seus recursos, disposto a uma última cartada para eliminar Wilson Fisk e tendo ninguém menos que a ninja mercenária Elektra no seu encalço.

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O que faz, enfim, “Justiceiro MAX” valer a leitura? Jason Aaron é um cara muito bom em tramas policiais, talento já visto na série “Escalpo”, da Vertigo. Ele mostra, ainda, um Frank Castle que não se restringe à já conhecida máquina de matar. É um homem castigado pela vida, pelos traumas familiares, já estava marcado pelos horrores da Guerra do Vietnã, tornando-se cada vez mais distante dos entes queridos. Por tudo isso, alguém que não conseguia fugir ao destino por mais que, eventualmente, questionasse a validade de tudo que fez.

Se não bastasse o protagonista, a revista conta com coadjuvantes muito bem construídos. Wilson Fisk é assombroso em sua obstinação por tomar o controle das atividades ilegais em Nova York, por mais alto que seja o preço, ao mesmo tempo que é possível ver na sua pessoa as mesmas fragilidades que carregamos. Sua esposa, Vanessa, é o próprio espírito da tragédia e da vingança. O Mercenário é insanidade pura. E Elektra ganha uma dimensão totalmente diferente ao surgir no encadernado derradeiro.

Para coroar, “Justiceiro MAX” conta com o traço inigualável de Steve Dillon. Os mais chatos podem dizer que todos seus personagens possuem o mesmo queixo, nariz, formato de cabeça, mas são nos pequenos detalhes que o inglês fazia a diferença, com traços limpos, elegantes, sem exageros de qualquer tipo. Quem acompanhou o trabalho do artista em “Preacher” e “Hellblazer” sabe qual é o lance. Triste é saber que ele morreu em 22 de outubro de 2016, aos 54 anos, por uma estúpida apendicite.

Se ainda precisar de mais motivos para ler “Justiceiro MAX”, vale lembrar que a série do vigilante urbano estreia em breve na Netflix, e as HQs podem ser uma excelente prévia do vem por aí.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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