#SddsLocomotion

Por Júlio Black

06/12/2017 às 10h27 - Atualizada 06/12/2017 às 10h27


Oi, gente.

Preciso dividir um segredo com vocês esta semana: me bateu uma nostalgia danada, como raramente acontece comigo. Não sou desses que vivem a glorificar o passado, tipo a galera que viveu os anos 80 e hoje marca ponto em shows de bandas ruins que vivem a cantar sobre seus Ursinhos Blau Blaus, sem contar os inúmeros covers de nomes do BRock e fãs de “Armação ilimitada”. Nem “TV Pirata” assisto com o mesmo gosto, até “Os Normais” ficou assim-assim.

Mas… Gente, que saudades da Locomotion!

A turminha mais nova, alimentada com Netflix e YouTube e outros streamings afins talvez não saiba, mas houve uma época em que só a TV a por assinatura e o VHS salvavam. E foi com o primeiro que tive contato com a programação maravilhosa do Locomotion, canal que surgiu em meados dos anos 90 reprisando animações mais ligadas ao público infantil e que encontrou seu nicho na virada do milênio, ao dedicar sua grade com atrações direcionadas ao público adulto, tanto com produções japonesas de vários gêneros quanto com americanas.

É até difícil listar tudo de bom que passava no canal, mas vamos lá. Primeiramente com os favoritos da casa, “Evangelion” e “Cowboy Bebop”, clássicos que os fãs de anime veneram até hoje. O primeiro misturava ficção científica, religião, sexo, humor, filosofia num futuro não muito distante, em que a humanidade precisava impedir sua extinção pelas mãos dos Anjos com os EVAs, gigantescas criaturas híbridas (“humanos”/máquinas) que eram comandadas por adolescentes. “Cowboy Bebop”, por outro lado, mostrava um grupo de caçadores de recompensas no ano de 2071, numa trama marcada por violência, questões existencialistas, influências de faroeste, filmes noir, kung fu e uma trilha sonora matadora, marcada por muito jazz, blues e rock.

Mas havia muito mais na seara dos animes. Um dos meus preferidos era o insano “Let’s dance with papa”, sobre um pai viúvo que tinha que cuidar de um casal de filhos. O problema é que a família era toda disfuncional: o pai ganhou na loteria e decidiu que não iria mais trabalhar, dedicando-se à bebedeira e sendo totalmente negligente com os filhos, no máximo fazendo de tudo para atormentá-los; no resto do tempo, viva a assediar o maior número possível de mulheres. Os filhos, então, não perdiam tempo em tentar se vingar do pai, sendo que a filha, mesmo novinha, era tão depravada quanto ele.

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Outros desenhos japas que marcaram época são o anime de terror “Boogiepop Phantom”; a novelinha “If I see you in my dreams”, sobre um jovem tímido que se apaixona por uma professora de jardim de infância, mas os dois enfrentam uma série de percalços para iniciarem o romance; “Cyber Team in Akihabara”; “Silent Möbius”; e a absurda e fofolete “Oh! Super Milk Chan”, sobre uma garotinha de cinco anos que tem superpoderes e é temperamental e algo implicante, que combate o crime em nome do Presidente.

Fora da seara japonesa, o Locomotion teve na sua programação uma série de atrações inéditas ou já transmitidas anteriormente por aqui, como “The Critic”, “Dr. Katz”, “Bob and Margareth”, “South Park”, “The Maxx”, o doentio “Ren & Stimpy” (“Happy Happy Joy Joy”) e o iconoclasta Duckman, sobre um pato detetive cercado por pessoas tão complicadas quanto ele, incluindo um filho de duas cabeças. E os intervalos eram sensacionais com suas vinhetas, tanto na trilha sonora quanto nas animações. E como se tratava de um canal para a América Latina, foi lá que descobri o grupo de pop eletrônico argentino Miranda, que passou meses infinitos promovendo seu álbum “És mentira”.

O canal, infelizmente, teve seu fim em julho de 2005, pouco antes do Cartoon Network criar sua faixa “Adult Swim” com “Harvey Birdman”, “Sealab 2021”, “Frango Robô” e outras pérolas. A princípio, o Locomotion virou Animax, mas já não era a mesma coisa. Com o tempo, o pouco que restou de bom do antigo canal foi desaparecendo na sua nova encarnação, e daí ficamos com a saudade dos bons tempos em que o Locomotion era O Canal para quem gostava de desenhos animados para gente grande.

Ah, que saudade. Ah, que nostalgia. Ainda bem que o YouTube está aí para lembrarmos os bons tempos.

Vida longa e próspera. E obrigado pelos peixes.

Júlio Black

Júlio Black

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