Pijama

Por Júlia Pessôa

27/08/2017 às 06h18 - Atualizada 25/08/2017 às 17h55

Atire a primeira pedra quem, em função de cansaço extremo, manguaça, falta de pijama limpo ou qualquer outro motivo não pegou no sono com a roupa que estava no corpo, ou com uma peça velha perdida no armário. Embora eu não escape da máxima, preciso admitir que odeio dormir com qualquer coisa que não seja pijama e suas variações: camisola, baby-doll (ainda se fala isso?) e outros. Fato é que sou obcecada pelo traje, e tenho vários modelos, do mais quentinho ao que cobre só o que precisa, do mais vagabundo ao de seda, do mais mulambo ao mais gatona.

Quando estou de pijama, quase sempre sei que quem determina as prioridades sou eu, sem interferência das obrigações, do tique-taque, dos deadlines, dos contratos e dos boletos. É quando acaba o dia – ou ainda nem começou. Quando é sábado e dá para ficar um pouco mais entre os cobertores – o de orelha, inclusive. Melhor ainda quando é domingo, dia que normalmente dedico inteiramente a esta vestimenta, tomando banho e colocando um pijama limpo, meu manifesto particular de descompromisso, minha doce e pueril transgressão às horas úteis.

Não por acaso, é nestes momentos de total despretensão e desobrigação que encontro clareza de pensamento. Com as calças do pijama enfiadas na meia nestes dias de frio e sem pensar que em breve preciso estar em vestes socialmente aceitas, sinto que tenho mais paz pra construir um senso crítico mais apurado, mesmo que venha ruminando um assunto por dias a fio na nebulosidade da correria do cotidiano. A camisola que sobe e me descobre o traseiro nas noites quentes deve também refrescar as ideias, porque é no despojamento atrevido dela que consigo parar para refletir por tudo que atropelei usando roupas de enfrentar o mundo.

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Talvez se todo mundo usasse mais pijamas, o mundo fosse um lugar melhor. Mas em tempos em que se fala, como um argumento sério (e não como descabimento absoluto), de Terra plana, nazismo, racismo reverso, heterofobia, armamento do cidadão e privilégio feminino, entre tantos outros disparates, a sabedoria popular de raiz é imbatível: tem muita gente dormindo de calça jeans.

Júlia Pessôa

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