Aquele abraço

Por Júlia Pessôa

25/06/2017 às 07h11 - Atualizada 26/06/2017 às 15h28

Eu cresci numa família que não economiza afeto. Tudo é abraço, beijo, “te amo” pra lá, “tô com saudade” pra cá, doses cavalares de carinho. Hoje dou até risada quando me lembro de que na adolescência meu maior temor, deusolivre, cruz-credão, era de que a paixãozinha teen da vez descobrisse o que eu sentia. Claro que toda minha tentativa de mistério era uma fraude, porque meus olhinhos brilhando, uma tremedeira sem fim e as palavras que me fugiam denunciavam sempre ao crush – como diz a xufentude de agora – que meu coração estava derretendo em sua presença. Adulta, não poupo palavras de amor a quem o desperta em mim: família, amigos, o Renato, gente que eu admiro e até aquelas pessoas que a gente nem conhece direito, mas simplesmente gosta de graça. E com as palavras, vão muitos abraços.

Perdão pela afirmação de autoajuda, mas o poder de um abraço, qualquer um, nunca pode ser subestimado. É o que segura a gente de pé quando estamos desabando; o que mata instantaneamente uma saudade, independentemente de seu tamanho; o que acolhe; o que embala cantorias ébrias; o que conforta; o que muda o dia. Mas há uma espécie muito peculiar de abraço, que parece ser uma casa, um porto seguro, ou qualquer coisa que dê, ao mesmo tempo, poder, paz e segurança. É o abraço entre mulheres.

São corpos dizendo um milhão de coisas que nem a edição Master Gold Deluxe do Aurélio seria capaz de expressar em palavras. Vai do “miga, sua loka” ao “Vou junto na delegacia pra você denunciá-lo”. Do “Fiz um aborto” ao “Você está linda de noiva”. Do “Parabéns pela promoção” ao “estou me separando”. Eu não sei exatamente como opera o mecanismo, mas não importa quanto dure o enlaçar de braços, toda dor parece ser menor ou, ao menos, ganha uma redoma de conforto na fração de tempo do abraço de mulheres. Assim como todo riso é elevado a uma potência tão elevada que meu cérebro de humanas jamais conseguiria calcular.

O conteúdo continua após o anúncio

É inúttil tentar explicar. Só estando em uma das extremidades e sendo tomada por um sentimento de compreensão e empatia tão fortes que extrapolam seu corpo e vão em direção ao outro é possível saber do que se trata. Mesmo sendo uma pessimista inveterada, reconheço que tenho uma sorte inestimável em nem conseguir quantificar minha cota deste antídoto tão revolucionário. Apesar de estar longe de ser uma pessoa boa – apesar dos esforços -, eu espero e torço genuinamente que toda mulher que me ler e desconhecer o que eu estou falando sinta isso um dia. Ou todos os dias. Não precisa se preocupar em entender. Na hora se sabe. A vida muda. É aquele abraço.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia