Coisa de pele

Por Júlia Pessôa

17/06/2017 às 07h00 - Atualizada 19/06/2017 às 09h30

A culpa é uma mochila que tenho sempre à tiracolo, algo que atribuo muito a ter estudado em colégio de freira por boa parte da vida escolar. Ou vai ver é coisa minha mesmo. Aprendi, caindo e levantando mais vezes do que posso contar, que a culpa é um peso inútil de se levar no lombo, porque só faz a gente afundar, podendo chegar a fundos de poço sem qualquer lembrança do que tinha sido a luz. Eu sei, eu estive por lá.

Nem sempre sei exatamente por que a mochila está pesada. Em outras vezes, sei exatamente a carga que me esmaga a coluna, da cervical à lombar. Sinto muita culpa por não estar mais com a minha família. Por não saber quanto minha afilhada calça, nenhuma das duas. Muito menos meu afilhado. Por sempre confundir os horários em que minha mãe está em casa. Por não ter ideia de como é a rotina do meu irmão. Porque o tempo que fico sem ver meu pai se conta em meses. Porque não sei o que vai ter no almoço de família de hoje. Porque vejo os filhos de meus amigos tão pouco que eles nem sabem que é Tia Júlia. Porque nunca dá tempo pra tanta coisa que eu queria, precisava e adoraria fazer. E dizer.

Muitas vezes, quando sinto os ombros doloridos, penso comigo: bem-feito! Pela culpa que carrego pelas vezes em que minha impaciência crônica me fez revirar os olhos a quem só queria agradar. Por todas as vezes em que, de saco cheio com alguma coisa, deixei o caldo derramar sobre quem nada tinha a ver com isso. Por ter falado demais. E de menos. Por todas as vezes em que fui uma babaca, gratuitamente. E por aquelas em que não atendi o telefone, não prestei atenção no assunto ou atravessei a rua, acometida por uma enorme preguiça social. Bem-feito, mil vezes bem-feito!

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Com o tempo, fui aprendendo a esvaziar a mochila, porque carregar peso morto atrasa a caminhada, e tempo é recurso escasso. Mas mais importante que isso, fui aprendendo – não sem o coração e a coluna muitas vezes estourados – a não mais cometer os erros que a tornam tão pesada. Diz a sabedoria popular que “errar é humano”, mas não dá pra continuar carregando sempre as mesmas cargas, nem carregar culpa para sempre. Erra-se, aprende-se, caminha-se. E assim, sucessivamente. Vida que segue.

Ainda bem que nunca me tatuaram na testa todo o peso que já transportei na mochila. Se a atrocidade vira moda, ia me faltar pele.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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