Bem na nossa cara

Por Júlia Pessôa

03/09/2017 às 06h09 - Atualizada 01/09/2017 às 19h24

Se você acompanhou, o mínimo que seja, os últimos noticiários e pensou: “que dias mais desgraçados para se ser mulher”, acertou. Começou com a escritora Clara Averbuck relatando o estupro que sofreu durante uma corrida de Uber. Seguiu-se com o intolerável caso de um homem que ejaculou no rosto de uma mulher que dormia, sentada, dentro de um ônibus em plena Avenida Paulista. Para o azar dela, por sinal. A resposta da Justiça foi que “não houve constrangimento tampouco violência ou grave ameaça, pois a vítima estava sentada em um banco de ônibus”. Errada estava ela, que devia estar em pé. Assim, ejaculavam-lhe no traseiro, e não na cara, talvez.

Como era de se esperar, porque a impunidade é a mãe (ou, quiçá, um pai inescrupuloso) do machismo, UM DIA, um dia depois de o ejaculador do coletivo ser liberado após audiência de custódia, outro homem foi detido por assédio sexual depois de repetir o ato, ejaculando na perna de uma passageira em uma estação do BRT, em Guaratiba, Zona Oeste do Rio. No Rio Grande do Sul, uma professora foi morta estrangulada após ser retirada à força da sala de aula onde lecionava catequese, e as três alunas presentes foram amordaçadas e algemadas. Isso só para mencionar os casos que ganharam a mídia, pois na cruel invisibilidade do cotidiano, incontáveis (mesmo) variações do tema acontecem diariamente. Foi uma bosta de semana para se ser mulher, sim. Mas não se engane. Toda semana é, todo dia é.

Não estamos livres de ser violadas em qualquer forma de locomoção do dia a dia: a pé, de transporte coletivo, de táxi, de Uber, nunca. Cotidianamente, mudamos de lugar no ônibus para fugir de um encoxador (palavra que só existe porque o assédio sexual é rotineiro). Mandamos o trajeto do táxi ou Uber e os dados do motorista para uma amiga quando nos sentimos ameaçadas e inseguras. Paramos a caminhada quando temos a sensação de sermos seguidas. Se o cara parar também, deu ruim. Corre. Muito. Entramos em lojas e prédios procurando abrigo para nossos corpos e nossas sanidades. Abordamos desavisados desconhecidos – e, sobretudo, desconhecidas – na rua, porque mulher sozinha em qualquer lugar é um alvo constante. Vamos juntas. “Vai de carro, uai!” Mulher no volante? Tem isso também, somos desacreditadas de nossas capacidades, desmerecidas em nossas competências. Todo dia.

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Enquanto eu tiver voz, vou me juntar ao coro das mulheres que não se calam mais – e digo isso ciente do meu espaço privilegiado de branca, hétero, cis e de classe média. Vamos fazer textão na internet; responder, desaforadíssimas, cantadas na rua (correndo risco, diga-se de passagem); denunciar, denunciar, denunciar… incansavelmente. Nem que seja para morrer na praia, talvez com as vestes rasgadas, a calcinha pelo meio das pernas e marcas de violência pelo corpo todo. Mas nunca mais ficaremos em silêncio. Vamos fazer um escândalo. Porque o mundo, pontualmente todos os dias, está gozando na nossa cara. Literalmente.

Júlia Pessôa

Júlia Pessôa

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