Uma autora de 18 anos e 21 livros escritos

Por Marisa Loures

31/10/2017 às 07h00 - Atualizada 05/11/2017 às 20h00

Ana Beatriz Brandão reflete sobre a a Esclerose Lateral Amiotrófica (Ela) no recém-lançado “A garota das sapatilhas brancas” – Foto: Divulgação

Ana Beatriz Brandão tem 18 anos. É apenas uma menina e já tem 21 livros escritos e quatro publicados. O novo título – “A garota das sapatilhas brancas” (Verus Editora, 192 páginas), spin-off de “O Garoto do Cachecol Vermelho” (Verus Editora, 294 páginas) – foi lançado na Bienal do Livro do Rio de Janeiro e já figurou na lista dos mais vendidos da Revista Veja na categoria infantojuvenil. Ela tinha 13 anos quando se descobriu escritora e, até então acostumada a escrever somente para si mesma, nunca pensou que suas histórias pudessem ganhar outros leitores. Por isso, ainda se surpreende com as mudanças que vieram com o reconhecimento.

Na nova obra, a autora ultrapassa o simples entretenimento, ao tocar em um assunto sério: a Esclerose Lateral Amiotrófica, mais conhecida como ELA. Daniel Lobos sofre da mesma doença do pai, mas vive a vida plenamente. Dono de um coração enorme, o jovem divide seu tempo entre duas paixões: a música e as causas sociais. Seu caminho se cruza com o de Melissa, uma bailarina que põe à prova tudo o que ele acredita. Ele tenta se desviar dos familiares que tanto fazem perguntas sobre seu estado enquanto faz de tudo para arrancar sorrisos dessa garota.

“O que percebi é que todos os meus livros tratam de algum assunto mais sério de uma maneira mais informal. Percebi que gosto de mostrar assuntos pesados, muitas vezes desconhecidos, mostrar de uma forma com que as pessoas possam se identificar. Fiquei muito feliz, porque os leitores se identificaram com a Ela no meu livro e passaram a ajudar também. Recebo muita mensagem de pessoas perguntando como é que faz para doar”, conta a autora, que já estava doando parte da tiragem de “O garoto do cachecol vermelho” para a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (Abrela) e que agora doou os direitos autorais de “A garota das sapatilhas brancas” para o Instituto Paulo Gontijo e a Associação Regional de Esclerose Lateral Amiotrófica (Arela-RS).

Ana Beatriz também já enviou para as prateleiras os livros “Caçadores de almas” (Novo Século, 222 páginas) e “Sombras de um anjo” (Novo Século, 480 páginas).

Marisa Loures – Como é “A garota das sapatilhas brancas”?

Ana Beatriz – Para apresentar a Melissa, tenho que começar falando que ela é uma chata, preconceituosa. Todas as características ruins que uma pessoa pode ter estão nela. Ela tem o sonho de entrar numa faculdade de Nova York para estudar balé. Ela é superfocada nisso. Ela é preconceituosa. Quando ela conhece o Daniel, que é o oposto dela, que é superbonzinho, ele olha para ela e vê uma pessoa que precisa de ajuda. Ele faz um acordo de, em dois meses, mostrar a vida em cores para ela.

– O Daniel sofre de Esclerose Lateral Amiotrófica (Ela). O que te levou a escrever sobre a luta desse personagem?

– Ao contrário do que muita gente pensa, não conhecia nenhum paciente que tem a Ela antes de eu escrever o livro. Foi só depois de eu pesquisar bastante na internet sobre as características que eu precisava para colocar na doença que eu queria tratar no livro, porque eu queria usar meu livro para conscientizar as pessoas para uma doença, só depois de eu ter encontrado a Ela e de ter ido visitar a Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (Abrela), que decidi falar sobre esse assunto. Vi o quanto é difícil, o quanto as pessoas sabem pouco sobre a Ela e vi como é a associação, uma salinha que vive de doações. Então, estou usando meu livro para divulgar a Abrela, para divulgar essa doença para as pessoas ajudarem cada vez mais os pacientes. Quando eu visitei e quando fui escrever o livro, eles me ajudaram muito. Eu ligava, mandava mensagens, e eles me respondiam na hora. Aí eu entrei em sintonia com essa doença, eu me coloquei no lugar, vi como é e decidi que iria doar, porque era o mínimo que eu podia fazer.

 “Na verdade, nunca pensei nisso. Nunca pensei em escrever meus livros para quebrar estereótipos nem nada. É uma coisa que vem de mim, eu gosto de estudar muito quando escrevo e, quanto mais assuntos complicados e desconhecidos eu coloco nas minhas histórias, mais posso estudar.”

– A literatura adolescente que cai no gosto popular e entra para a lista dos mais vendidos costuma ser taxada como um gênero menor, que só busca entretenimento. Mas me parece que você tenta quebrar esse estereótipo, tenta ir além do puro divertimento. Estou certa?

– Na verdade, nunca pensei nisso. Nunca pensei em escrever meus livros para quebrar estereótipos nem nada. É uma coisa que vem de mim, eu gosto de estudar muito quando escrevo e, quanto mais assuntos complicados e desconhecidos eu coloco nas minhas histórias, mais posso estudar. Depois que publiquei meu primeiro livro, é que comecei a me conscientizar, mas nunca, por exemplo, comparar. “Ah, estou passando uma mensagem, ao contrário dos outros.”

– Como foi sua entrada no mercado editorial?

– Nem sabia que era possível publicar. Até por isso, escrevia só para mim. Depois, minha mãe leu uma das minhas histórias, porque ela é uma leitura assídua, disse que estava muito bom e me deu a ideia de publicar. A primeira coisa que falei foi: “Como assim, dá para fazer isso?” Aí a gente começou a procurar editoras, enviou meus originais. Eles pediram para publicar meu livro. A partir daí que começou tudo isso. Agora, pela minha segunda editora, fui encontrada mesmo. Eles foram conversar comigo, pediram o livro, e foi bem legal.

– Você é considerada uma escritora fenômeno para sua idade. Tem 18 anos, 21 livros já escritos e já figura entre os mais vendidos. Sua vida mudou muito depois que se tornou conhecida entre os adolescentes e começou a fazer parte dessa lista?

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– Mudou. Não tanto na parte prática, no relacionamento com pessoas, em entrevistas, foi mais uma coisa pessoal mesmo. Depois que eu vi como as pessoas estavam gostando do livro, que ele estava alcançando diversos públicos, adquiri um pouco mais de confiança em mim. Sempre escrevi para mim e, depois que publiquei meus livros, vi que já não era mais só para mim. As pessoas poderiam ver e criticar, não gostar da história tanto quanto eu gostava. E, depois que ele entrou para a lista, deu um pouquinho de medo, porque estava alcançando mais gente, ia receber mais críticas, mas também fiquei muito feliz. Foi uma prova de que tudo era real. Eu sou mesmo uma escritora e um monte e gente me conhece.

“A garota das sapatilhas brancas”

Autora: Ana Beatriz Brandão

Editora: Verus (192 páginas)

 

Trechos de “A garota das sapatilhas brancas”

“Não sabia o que pensar, e nem como agir. Era como se todos os pensamentos que eu pudesse ter naquele momento tivessem sido sugados da minha mente. Tudo o que podia fazer era sentir, e acho que nem isso conseguia fazer direito. Eu tenho esclerose lateral amiotrófica. Tenho uma doença degenerativa sem cura.”

“Quando ela apertou minha mão, selando nosso acordo, eu soube que conseguiria. Nunca tive tanta certeza de algo na vida, como se de repente tudo fizesse sentido. Posso ter parecido um louco naquele momento, afinal nos conhecíamos fazia tão pouco tempo. Mas a cada encontro com Melissa eu sentia como se estivéssemos destinados a nos encontrar naquela noite de Ano-Novo. Como se o universo tivesse conspirado para nos levar até aquele momento.”

 

Sala de Leitura

Sexta-feira, às 10h05, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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