Temperatura sobe em Minas Gerais com lançamentos de títulos eróticos

Por Marisa Loures

24/10/2017 às 07h10 - Atualizada 05/11/2017 às 20h20

Juliana Mendes lança a duologia “Porque fechei os olhos” e “Porque abri os olhos”, enquanto S. Miller envia para as prateleiras o livro “Profano”

Depois de “Cinquenta tons de cinza”, a literatura erótica mundial anda muito bem. Obrigada! Christian Grey parece ter libertado a mulher de seus tabus. E quem afirma isso não sou eu, mas as mineiras consagradas no gênero S. Miller e Juliana Mendes. A dupla parceira no livro “Indomável coração”, Best-seller da Amazon e título que figurou na lista dos mais vendidos da Revista Veja, anda cada vez mais inclinada a investir no segmento. No último sábado, elas fizeram a temperatura subir mais do que o esperado em Belo Horizonte, com o lançamento de “Profano” (248 páginas) e da duologia “Porque fechei os olhos” (240 páginas) e “Porque abri os olhos” (130 páginas). Todos enviados para as prateleiras com selo da Ler Editorial.

Um padre que, após dez anos de dedicação à igreja, começa a questionar a própria vocação é o protagonista de “Profano”.  Na polêmica obra de S. Miller, o sacerdote resolve se afastar da vida religiosa para se descobrir como pessoa. Aí entra em cena todo um enredo sedutor. “Ele passa por momentos questionando se é homossexual ou não, se vai se apaixonar por alguém ou não. O livro aborda muitas questões que mexem com a cabeça do leitor”, conta a autora de mais de 7 milhões de leitores, cujo nome de batismo é Ivânia Aziz. “Tenho um sobrenome árabe e, quando lancei meus primeiros livros, a editora veio com a proposta de fazer uma tradução em inglês para vender lá fora, e o mercado não aceita muito bem o árabe. Não sei de onde saiu esse S. Miller. Simplesmente surgiu e pegou. Funcionou tanto que o livro ficou, durante dois anos, como um dos romances mais lidos.”

Filha de mãe professora e pai poeta, Juliana não só defende a literatura nacional, mas, principalmente, a erótica. Depois de fazer sucesso na Amazon com “Porque fechei os olhos”, ela resolveu escrever a continuação do drama romântico de Karen e publicou o “Porque abri os olhos.” A personagem principal é uma mulher que foge de qualquer relacionamento mais íntimo com outra pessoa. O único com acesso à sua vida é Andrew, seu melhor amigo. A vida dela é linear e previsível, até o surgimento de um ciente sedutor, o perturbador Paul Newman, que pode transformar seus sentimentos e sua visão de mundo. Na continuação dessa trama, Andrew sofre um acidente, fica entre a vida e a morte, e Karen promete ficar com ele caso ele sobreviva. O problema é que, enquanto isso, Newman ganha seu coração. “É uma história de amor, é um drama romântico, com um toque de sensualidade e erotismo. Escrevo de acordo com o que eu gosto de ler”, afirma a escritora que voltou a estar lado a lado da parceira e amiga S. Miller nesta entrevista para o Sala de Leitura.

Marisa Loures – “Profano” tem uma temática delicada e polêmica, porque o protagonista é um padre que tem sua vocação posta em xeque . Houve algum retorno negativo por parte dos leitores?

S. Miller – Só tenho recebido comentários positivos sobre a história, até porque tomei muito cuidado, fiz muita pesquisa teológica e filosófica para escrever o livro. Tomei muito cuidado para não ofender a religião católica e nenhuma outra religião. Falo um pouco sobre o sincretismo no livro, porque a protagonista feminina é baiana, ela traz um pouco desse sincretismo para a história. Tudo foi tratado com delicadeza e sensibilidade para não ofender ninguém.

“Por mais que um romance erótico tenha que conter os elementos do erotismo, aqueles elementos que envolvem a excitação e a libido, tem que acontecer dentro de um contexto, porque senão não é erótico. É pornográfico. Não tem nenhum problema ser pornográfico, só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O erótico suscita muito mais a vontade, a imaginação, aquela coisa do desejo, do que a coisa propriamente nua e crua.” Juliana Mendes

– “Porque abri os olhos”  e “Porque fechei os olhos” têm uma dose grande de romantismo. Literatura Erótica tem que ter uma boa história de amor?

Juliana Mendes – Gosto do romance, amo o drama, gosto demais da literatura erótica. Acho que, por mais que um romance erótico tenha que conter os elementos do erotismo, aqueles elementos que envolvem a excitação e a libido, tem que acontecer dentro de um contexto, porque senão não é erótico. É pornográfico. Não tem nenhum problema ser pornográfico, só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O erótico suscita muito mais a vontade, a imaginação, aquela coisa do desejo, do que a coisa propriamente nua e crua.

– Como os homens encaram esse universo erótico?

S. Miller – É até engraçado. Tenho leitores que falam assim: “vou comprar para dar de presente para a esposa, mas vou ler primeiro, para eu saber o que ela está lendo.” Os homens hoje em dia estão com a mente mais aberta, eles querem saber o que está agradando a esposa, a namorada, para eles poderem se adequar um pouquinho nesse universo também. E não só por isso. É pelo próprio entretenimento. Uma história não é só romance. Às vezes, ela tem uma história policial de fundo, um drama que é bacana de ler. Tem para todos os públicos e todos os gêneros.

– E eles costumam confundir a vida real com a ficção por vocês serem escritoras de literatura erótica?

Juliana- Não só os homens, como as mulheres também. E confundir de diversas formas. Confunde por meio do assédio, que é muito comum, por achar que, como a gente escreve sobre sexo, a gente quer fazer sexo o tempo todo com qualquer pessoa. E Confunde assim: “Ah, ela escreve literatura erótica, é uma literatura de entretenimento, de menor valor”. Existe um preconceito que não é só masculino. Acho até que o público masculino tem sido muito aberto. A literatura erótica tem circulado entre os homens bem mais do que antes. Esse preconceito que existe com a literatura erótica é geral. Tem caído depois que veio a geração dos “Cinquenta tons de cinza”, que realmente foi um marco da literatura erótica para abrir a possibilidade de aquilo ser lido e não ser encarado como tabu, vergonha e tal. Hoje o preconceito é muito menor, mas existe.

“E por que a mulher está gostando tanto de literatura erótica? Quando você pega filmes eróticos, eles são feitos para homens. O livro tem uma delicadeza que conversa com a linguagem feminina. É uma história feita para mulheres. Nada impede que o homem leia, até porque tenho muito leitor homem, inclusive. Mas a história traz uma delicadeza, um encanto maior para a mulher. E é uma quebra de tabu, porque a mulher também sente desejos, ela tem sonhos, e ela encontra tudo isso na literatura.” S. Miller

– S. Miller é best seller da literatura erótica nacional contemporânea. Já são sete milhões de leitores. O que vem contribuindo para que esse mercado se torne um filão?

S. Miller – Todo mundo acha que a literatura erótica começou com “Cinquenta tons de cinza” e, na verdade, não foi. É um estilo literário que existe há muitas décadas. Inclusive, a gente tem uma grande dama da literatura erótica brasileira que é a Cassandra Rios. Ele ressurgiu agora, forte, por causa de “Cinquenta tons”. E por que a mulher está gostando tanto de literatura erótica? Quando você pega filmes eróticos, eles são feitos para homens. O livro tem uma delicadeza que conversa com a linguagem feminina. É uma história feita para mulheres. Nada impede que o homem leia, até porque tenho muito leitor homem, inclusive. Mas a história traz uma delicadeza, um encanto maior para a mulher. E é uma quebra de tabu, porque a mulher também sente desejos, ela tem sonhos, e ela encontra tudo isso na literatura.

– E apesar do preconceito que ainda existe, o número de leitores parece que só cresce. A gente pode dizer que esse aumento está ligado ao empoderamento feminino?

Juliana – Exatamente. Por isso que citei “Cinquenta tons de cinza”, porque me lembro, com muita nitidez, das mulheres dentro do ônibus, na rua, com o livro na mão, como se fosse um grito de liberdade. Um sinônimo de orgulho: “leio o que eu quero, minha sexualidade não é tabu e sou feliz. Sou mulher, gosto de sexo.” O empoderamento feminino, a mulher se assumir como mulher, como um ser sexual, ela ter tantos desejos e possibilidades quantos os homens, com certeza, mudou drasticamente o consumo desse tipo de literatura de entretenimento. Antes, o consumo maior era de chick-lit, do romance açucarado, e o romance erótico ficava debaixo do travesseiro, porque ele era vergonhoso. Agora, ele está no ônibus, está no trabalho. É muito legal ver essa evolução cultural e social.

– É a primeira vez que vocês lançam um livro na terra de vocês. Como as leitoras mineiras recebem a literatura erótica? Elas também seguem esta tendência mundial?

S. Miller – O que venho notando é que a mulher mineira é muito elegante e discreta. Ela está acompanhando a tendência mundial dessa quebra de tabu, está consumindo a literatura contemporânea, porém o que ela faz? Ela pesquisa antes de comprar para saber se o texto é de qualidade. E a gente vem percebendo que nossos livros nacionais vêm ganhando força, porque eles estão em destaque nas livrarias, estão entre os mais vendidos. Então, a mulher vai ali na discrição, mas está consumindo a literatura de qualidade.

– Como best seller, você consegue viver da sua arte?

S. Miller – Hoje estou 100% por conta de escrever. É uma área difícil para se trabalhar aqui no Brasil. As pessoas falam que o brasileiro não lê. Não é verdade, ele lê. Só que ele está descobrindo um novo prazer em ler. A verdade é esta: o brasileiro cansou um pouquinho do clássico e está procurando essa coisa mais contemporânea, mais moderna, que conversa mais com a realidade da vida das pessoas. Hoje em dia, se você trabalhar direitinho, for persistente, você consegue viver da escrita sim.

O conteúdo continua após o anúncio

– Juliana, seu livro foi lançado oficialmente na Bienal do Rio. Nesses eventos, as pessoas chegam perto do stand e pegam a publicação sem qualquer pudor?

Juliana – A bienal é a melhor experiência da vida. Muita gente vem por sua causa. Vem para o stand, porque quer te conhecer, porque quer seu livro, porque conhece sua obra. É maravilhoso. Também é muito legal ver  as pessoas que você capta, porque sua obra chamou atenção, porque você está ali. O acesso ao autor nacional é muito importante. Autor nacional no stand vende muito livro, porque as pessoas querem esse contato com ele, o que elas não têm, comprando um livro de escritor internacional. As pessoas chegam, pegam o livro, tiram foto, choram. É fantástico, uma experiência que não tem como mensurar. Na Bienal do Rio, uma menina chegou no stand e falou assim: “Qual a história do livro?” Falei. “Olha, vou comprar seu livro, mas não leio nacional. O primeiro vai ser o seu.” Pensei: “nossa, que responsabilidade. Se ela não gostar, fechei a porta para o nacional.” Semana passada, ela me chamou no Facebook, fez mil elogios e aí fico sabendo que ela não só não lia nacional, como também não lia erótico. Ela disse que agora vai comprar só nacional e erótico. Eu me enchi de orgulho, porque abri as portas para todos os meus colegas. Essas conquistas são muito legais. Já caiu o tabu do erótico.

Profano”

Autora: S. Miller

Editora: Ler Editorial (248 páginas)

 

 

 

 

 

 

 “Porque fechei os olhos”

Autora: Juliana Mendes

Ler Editoral: (240 páginas)

“Porque abri os olhos”

Autora: Juliana Mendes

Ler Editorial: (130 páginas).

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

Leia também

Desenvolvido por Grupo Emedia