Juliana James conta uma história real e comovente

Por Marisa Loures

22/08/2017 às 07:07hs - Atualizada 21/08/2017 às 21:12hs

A escritora e atriz Juliana James com os bonecos que vão para a cena no espetáculo “Qual a cor da sua vida?”, uma adaptação do livro, de mesmo nome, de Juliana

Era uma vez uma menina chamada Juliana. Diferentemente de outras garotas da mesma idade, ela não gostava de brincar de casinha. Sua diversão favorita era fazer livros. Grampear papéis, escrever, colorir e ver as histórias ganharem forma. Na adolescência, tinha Pedro Bandeira na lista de autores que sempre preencheram sua vida de muita magia. Juliana cresceu, não perdeu o gosto pela palavra escrita. Ao contrário. Fez dela sua arte, acrescentando aí o teatro, regado a muito texto de Maria Clara Machado. Tornou-se, claro, uma escritora, além de professora e atriz.

Guardou só para ela, por muito tempo, as histórias que criava, até que elas começaram a saltar para as páginas de um livro. Já são cinco obras lançadas – “Histórias para meninas que gostam de borboletas e castelos encantados”, “Histórias para meninos que gostam de férias e dragões”, “Sobre as coisas que a gente vê”, “Quem mora ao lado” e “Qual a cor da sua vida?”. Esta última, lançada pela Giostri em 2013, marcou a estreia de Juliana James entre os autores publicados e volta à cena em espetáculo adaptado para o palco. Inspirada no universo da pequena Beatriz Pernisa, a peça aborda o câncer com a mesma leveza com que é tratado no livro.

“A Beatriz é uma menina que não está mais entre nós. Quando comecei a escrever o livro, me inspirei na história que ela vivia com a mãe dela, de muita força, de muita luz. A mãe é uma pessoa muito positiva. Eu tinha uma grande amiga que era prima delas e que me contava coisas que aconteciam. A Beatriz estava doente, foi diagnosticada com um câncer raro, e, na história, trato como leucemia. No livro, ela tem essa mãe pra cima, uma artista plástica que, em todo momento de dificuldade, com os pinceis e com os desenhos, transporta a menina para outros cenários, tentando lidar com os problemas com leveza e positividade”, conta a autora.

O espetáculo cumpre curta temporada nos dias 26 e 27 de agosto, em O Andar de Baixo, e dia 2 de setembro, na Arteria, sempre às 17h. As atrizes Juliana James e Carú Rezende contarão com os bonecos de Nina Braga e a trilha sonora instrumental de Rogério Nascimento. A orientação para a montagem foi da contadora de histórias Laura Delgado, também responsável pelo tema de abertura da peça. Aliás, dizem que a música, de tão encantadora, promete grudar na cabeça da garotada.

Marisa Loures – Quando você criou a personagem mãe da Beatriz, sua ideia era mostrar como a arte pode ser um forte instrumento nos momentos de dificuldades?

Juliana James – Na verdade, quando criei, não pensei nisso.  Pensei mesmo na beleza da coisa. É claro que a arte tem essa ludicidade, esse poder de transformar, de ajudar.  Eu mesma dou aula de teatro e trabalho com algumas crianças especiais. A gente trabalha a inclusão através da arte, e eu vejo que isso é real, mas, para criar a personagem, não pensei nisso não. Fui criando sem pensar muito em consequências. Quando fui escrevendo essa história, não estava planejando publicá-la. Estava escrevendo porque estava saindo e, quando mostrei para uns amigos, acabaram me encorajando a publicar.

– Há escritores que preferem não se envolver com adaptações de seus livros, já você está em cena.  Como foi voltar a essa obra sem manter o distanciamento? A história é exatamente a mesma?

Sim, é a mesma obra. Fui fiel a ela. Não mantive qualquer distanciamento pela vontade de realizar esse trabalho, porque, desde que lancei o livro, tinha vontade de colocar isso em cena. Quando escrevia, o que eu pensava era em realizar uma peça, não o livro. O livro veio antes, e eu fiquei com esse desejo guardado. Encontrei a Laura e a Carú, dei total liberdade para mudar o que fosse preciso. Acabou que a gente manteve a ordem das coisas.

– Seu livro é infantil e trata de um assunto um tanto delicado. Você defende a ideia de que não devemos poupar as crianças de temas doloridos?

Isso tem a ver com a forma como a gente vê a vida, é bem pessoal.  Tenho filho e penso que as conversas têm que surgir de um jeito natural. Se ele tem uma dúvida, a gente pode conversar sobre qualquer coisa. Na linguagem de acordo com a idade dele, claro. O jeito como é tratada a doença no livro não vai fazer mal a qualquer criança. Pode ser que ajude, que faça bem, que abra possibilidade de um debate sobre isso. Na história, a Beatriz perde uma amiga e, quando ela perde essa amiga, ela encontra uma boneca que ela deu para essa amiga e conversa com ela, explica que a amiga se foi, contando do jeito como a mãe dela explicou para ela sobre a morte. Ela conta que a amiguinha dela foi para Casa do Para Sempre. A Casa do Para Sempre é um lugar onde todas as pessoas de quem a gente tem muita saudade ficam quando partem. Não faço apelo a nenhuma religião, dou essa explicação infantil, que é um lugar bonito para onde as pessoas vão, e a gente pode ir para lá um dia também. É uma oportunidade para os pais também porque, poxa, as crianças também perdem pessoas queridas. Às vezes, acho ruim a falta de conversa porque, de repente, a criança perde um amigo, como os amigos perderam a Beatriz na época em que ela se foi. Meu filho já perdeu avó, o tio. Acho que a criança também precisa conversar sobre assuntos que não são tão fáceis. Faz parte da vida.

– No palco essa história pode alcançar o mesmo público do livro, mas pode alcançar muitos outros públicos. O que você espera desse voo que sua história vai fazer?

De verdade mesmo, espero realizar, porque esse caminho de realização, de encontrar pessoas que vestem a camisa para fazer seu projeto, é tão difícil. A gente fez essa produção independente, sem apoio de nenhuma lei. Tivemos alguns amigos, pessoas que apoiaram a gente. A grande coisa agora é realizar, sem expectativas. A gente está se emocionando, se divertindo fazendo, e a gente espera passar essa emoção para o público. Que todos entendam como quiser, sintam como quiser.

– Já são cinco livros publicados. Como você os faz circularem?

O “Qual a cor da sua vida” lancei pela editora Giostri, de São Paulo. Teve lançamento na Saraiva. Foi vendido lá e também é vendido pela internet. Todos meus livros podem ser encontrados na internet. O “Quem mora ao lado” foi pela editora Franco, dá para encontrar na livraria Arco-Íris, e os outros em qualquer livraria.

– Muitos autores me relatam as dificuldades enfrentadas pelos escritores aqui da cidade. Para você, como está sendo ser uma escritora em Juiz de Fora?

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Nem me considero uma escritora. Acho que sou uma curiosa, uma pessoa inquieta. Agora, estou fazendo faculdade de novo, comecei a fazer pedagogia. Então acho que sou uma inquieta. Não posso me definir como uma cosia só. Sou muitas coisas, e umas das coisas de que gosto de fazer é escrever. Quando vêm boas ideias e bate a vontade de escrever alguma coisa, acabo escrevendo. Esses livros, por acaso, eu publiquei, mas escrevi muito mais. Por conta das aulas de teatro, gosto muito de escrever para os alunos textos autorais, porque aí a gente pode fazer um texto especial para aquela turma, para aquela criança, sabendo o desempenho de cada uma. Fica bem mais gostoso.

– O que suas histórias dizem sobre você?

As histórias têm sempre um pouco da gente. Inclusive, todos os personagens de livros meus, apesar de nem todos serem reais, têm nomes de pessoas reais. Acabo colocando nomes de amigos, de pessoas da família, pessoas de que gosto muito.

“Quem mora ao lado?”, seu mais recente livro, aborda uma história de amizade ente criança e idoso. Nele, sua intenção, também, era falar sobre o medo que as pessoas têm das mudanças. Seus livros precisam, sempre, ter um ensinamento, transmitir uma mensagem?

Na verdade, não tem que ter uma mensagem. Acontece. Nem passo como mensagem. É mesmo uma história de vida, um texto literário de ficção, mas não tem como base a obrigação de passar uma mensagem.

– Hoje, afastar os pequenos da atração exercida pelos brinquedos eletrônicos é muito difícil. Qual o maior desafio em resgatar as crianças para narrativas nos livros e no teatro?

Espero que elas tenham a oportunidade de vivenciar a leitura um pouco como eu. Na minha infância e adolescência, na nossa época, a gente lia mais, porque não tinha essas coisas todas. Vejo mesmo com meu próprio filho. Sentar com ele para ler um livro, para contar uma história em meio a brinquedos tão legais é um desafio. Não dá simplesmente para pegar um livro e lê, tem que contar a história de um jeito diferente para chamar atenção da criança para esse universo.

Qual a cor da sua vida?”

 

Autora: Juliana James

Editora: Giostri (32 páginas)

Apresentações do espetáculo “Qual a cor da sua vida?”

Dias 26 e 27 de agosto, às 17h, em Oandardebaixo (Rua Floriano Peixoto 37 – Centro).

Dia 2 de setembro, às 17h, na Arteria ( Rua Chanceler Oswaldo Aranha 545 – São Mateus).

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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