Lima Barreto: um autor necessário neste momento político brasileiro

Por Marisa Loures

18/07/2017 às 07:03hs - Atualizada 18/07/2017 às 09:33hs

    O carioca Lima Barreto é o homenageado de 2017 da Festa Literária Internacional de Paraty

A grande luta de Lima Barreto, o homenageado da Festa Literária Internacional de Paraty, de 2017, foi ser reconhecido como um nome das letras brasileiras. Assim explica Marcos Scheffel, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, doutor em Teoria da Literatura e organizador do livro “Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá” (Ateliê Editorial, 264 páginas), obra do escritor carioca que, quase um século depois de sua publicação, ainda é pouco conhecida do grande público. Ironicamente, apesar de estar entre os clássicos da nossa literatura, o autor que sofria com alcoolismo, pobreza, internações em hospício e que morreu, prematuramente, aos 41 anos, padeceu de invisibilidade quando vivo. Não raro, sua pena engajada e linguagem despojada não tinham a aprovação dos intelectuais da época e, ainda na contemporaneidade, dividem a opinião da crítica.

“Lima Barreto é um dos grandes intérpretes do Brasil, pela condição única dele, de um escritor negro, num momento em que teorias raciais muito complicadas com cunho científico tinham se estabelecido. Ele foi um cara que lutou muito contra uma forma nova de preconceito naquele momento e que tem um papel de destaque na literatura brasileira. Ele tem uma linguagem muito acessível, as pessoas reconhecem a atualidade das críticas dele”, defende Scheffel, que fará o lançamento da reedição de “Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá”, na Flip, dia 27 de julho. Às 15h, ele faz a palestra “Lima Barreto: Estética, Lírica e Crítica nas Páginas de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, seguida de sessão de autógrafos.

Iniciado em 1906, “Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá” só foi publicado em 1919. Lima Barreto preferiu apresentar para seu editor “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”. “Era um tanto cerebrino, o ‘Gonzaga de Sá’, muito calmo e solene, pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do Escrivão Isaías Caminha’, um livro desigual, propositalmente malfeito, brutal por vezes, mas sincero sempre”, justificou o escritor, em carta a Gonzaga Duque. Na história, o escrivão Augusto Machado conhece Gonzaga de Sá, um antigo funcionário público. Eles se tornam amigos e travam conversas caminhando pelo Rio de Janeiro. São conversas sobre temas da cidade.

“A trama se passa no início do século XX, quando a cidade do Rio de Janeiro está passando por um processo de reformas urbanísticas, e o Gonzaga de Sá, que é um senhor de idade, não gosta dessas reformas, não gosta das transformações que estão acontecendo na cidade onde ele se criou. Lima Barreto sempre foi muito contrário a essas obras de modernização. Esse personagem, Gonzaga de Sá, representa um pouco dessa saudade de uma cidade que não existe mais”. O volume organizado por Scheffel traz um texto introdutório com histórico da publicação, resumo sobre  atuação de Lima Barreto como cronista, estudo sobre os personagens, informações literárias e as razões sobre as quais esta é uma obra que quase caiu no esquecimento.

 

Marcos Scheffel organiza “Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá”, obra pouco conhecida de lima Barreto – Foto Divulgação

Marisa Loures – O que tem de obscuridade em  “Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá”?

Marcos Scheffel – Basicamente, só quem é especialista em Lima Barreto conhece esta obra. Lima Barreto é mais reconhecido pelo “Triste fim de Policarpo Quaresma”, romance que trouxe bastante fama para ele, isso já em 1915. As pessoas, às vezes, leram também “Recordações do escrivão Isaias Caminha”, que é de 1909 e faz dura crítica aos primeiros anos da vida republicana no Brasil, e, às vezes, conhecem “Clara dos Anjos”, também um romance importante. O “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá” é um livro que o próprio Lima Barreto tinha, talvez, certa dúvida em relação a ele, não tinha um projeto de publicação muito sério. Não era um dos grandes projetos à época do Lima Barreto. Ele fez outros livros. Foi em 1919, final de 1918, quando ele recebeu um convite do Monteiro Lobato para publicar um romance pela Revista do Brasil, que era uma editora do Monteiro Lobato, que Lima Barreto resgatou esse projeto de “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá”.

– E o que tem nesse livro que te instigou a se debruçar sobre ele?

– Comecei a trabalhar com Lima Barreto como pesquisa, primeiro no mestrado, na Universidade Federal de Santa Catarina, depois no doutorado, isso foi pelos idos de 2003. Antes, eu era um leitor, tinha lido Lima Barreto ainda jovem, depois no curso de letras. Quando você começa a fazer uma revisão, começa a ver que determinadas obras não têm tantos estudos, não têm tantos comentários sobre elas, e é isso que estimulou a minha curiosidade em relação à “Vida e morte” num primeiro momento. Naquele mesmo período, surgiram muitas questões ligadas ao Lima Barreto cronista, estudos importantes, como o da professora Beatriz Resende, da UFRJ, e da Raquel Valença, que coligiram a maior parte das crônicas do Lima Barreto naquele período. Eu estava lendo muita crônica do Lima Barreto naquela época e vi que o “Vida e morte”, na verdade, era um romance construído em cima de crônicas. Há capítulos do livro que foram publicados, num primeiro momento, como crônica.

“É um livro que traz esse Rio de Janeiro que, de repente, não existe mais, que tem esse componente histórico muito forte, um lirismo, as paisagens do Rio de Janeiro. É um livro com muitas notações visuais. É um Lima Barreto lírico, poético”

– Pode-se dizer que é um livro que deve ser lido, também, pelo seu viés histórico?

– Ele tem um viés histórico muito forte das transformações do Rio de Janeiro. O Francisco de Assis Barbosa, que foi um importante biógrafo do Lima Barreto, que compilou praticamente toda obra dele, dizia que o “Gonzaga de Sá” era uma espécie de hino de amor à cidade do Rio de Janeiro. Ele é um livro que traz esse Rio de Janeiro que, de repente, não existe mais, que tem esse componente histórico muito forte, um lirismo, as paisagens do Rio de Janeiro. É um livro com muitas notações visuais. É um Lima Barreto lírico, poético.

– Lima Barreto define sua própria literatura como militante. Em “Vida e Morte de M.J.Gonzaga de Sá”, essa militância está bem presente?

– Bastante. Um personagem histórico por quem o Lima Barreto tinha uma grande implicância é o Barão do Rio Branco. Ele é criticado, também, como alguém que transformou o Rio de Janeiro numa espécie de pátio da casa dele, porque fazia o que bem entendia, e os jornais aplaudiam, dizendo que ele era demais. Então, algumas críticas que são recorrentes em Lima Barreto estão nesse livro também. Outra situação é o próprio narrador, um personagem negro, que é o Augusto Machado. Mais uma vez, essa figura, a do narrador negro que vai contar um pouco da sua história, é recorrente no Lima Barreto, porque ele já a tinha usado em “Recordações do escrivão Isaias Caminha”. Tem muito esse traço biográfico do Lima Barreto. O Augusto Machado é um funcionário público, inteligente, com leitura. O Lima Barreto se projetava muito nos personagens dele.

– Muitos críticos apontam que a obra de Lima Barreto ora alcança altos níveis de criatividade e realização estética, ora abdica de maiores preocupações artísticas para se assumir como panfleto ou meio de documentação social, política e histórica. Apesar de ser um clássico, talvez Lima Barreto não tenha tanto reconhecimento na nossa literatura. Quais são as causas disso?

– Temos momentos em que a obra de Lima Barreto foi retomada na literatura brasileira. Talvez, seja uma imagem errada. O Lima Barreto, no seu tempo, foi um intelectual muito reconhecido, as pessoas procuravam-no. Ele contribuiu para jornais importantes, para revistas importantes. Importantes, no sentido de serem espaços, muitas vezes, de questionar a grande imprensa. O próprio Lobato, quando procura Lima Barreto e propõe a publicação do “Gonzaga de Sá”, diz assim: “Olha, a revista do Brasil quer muito contar com o livro do Lima Barreto, do autor de “Policarpo Quaresma”. A gente paga pouco, mas vai pagar.” Porque tinha um reconhecimento. Você tem que ver as cartas que o Lima Barreto trocava com autores do Brasil inteiro, como as pessoas reconheciam nele certa linguagem, algo que ele construiu ao longo dos 20 anos de atuação nas letras brasileiras. Depois, com a morte dele, ficou um período em que as pessoas conheciam as principais obras, mas não tinham a dimensão da integralidade da obra dele. Houve um pouco desse retorno com as “Obras completas”, do Lima Barreto, quando foram relançadas. Nos anos 70, Lima Barreto também é muito valorizado, porque é a época da Ditadura Militar no Brasil, e ele é visto como um autor muito engajado, muito político. De uns tempos para cá, teve uma valorização muito grande do “Diário do hospício” e “Cemitério dos vivos”, livros que tratam sobre a questão da internação manicomial. A crônica do Lima Barreto também começou a ser muito valorizada, porque o próprio gênero foi valorizado. Lima Barreto sempre foi muito cronista, e esse gênero, se a gente parar para pensar, começou a ganhar um status maior, basicamente, de meados do século XX para frente. O próprio Machado de Assis, a gente conhece a faceta dele cronista, mas é um movimento novo. São publicações recentes que catalogaram as crônicas do Machado de Assis.

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– A linguagem acessível do Lima Barreto se contrastou com o período…

– Era um período de muito purismo linguístico, de muita gramatiquice. Aquele período do início do século, só para fazer uma analogia, é o período do parnasianismo no Brasil, que era uma literatura com uma linguagem bastante elevada, com nomes das letras brasileiras, como Olavo Bilac e Rui Barbosa. Lima Barreto é o cara que vem com uma outra ideia de língua, de uma língua mais perto da que é falada pelas pessoas, a colocação pronominal que as pessoas usam, o jeito como as pessoas se expressam. Isso em termos de um registro culto da língua, mas um registro acessível. Muitas vezes, a linguagem de Lima Barreto foi considerada desleixada, mas a gente tem que relativizar isso, porque aquele período era um período de muito purismo linguístico. A linguagem dele continua muito atual para os dias de hoje.

“A Flip traz essa visibilidade de que Lima Barreto gostaria bastante, porque, antes de mais nada, ele sempre disse: “Eu sou um escritor”. As pessoas, às vezes, querem ver outras coisas no Lima Barreto, mas a grande luta dele foi para ser reconhecido como um escritor, como um nome das letras brasileiras”

– Nesse momento, os holofotes estão muito voltados para Lima Barreto por causa da Flip. Isso mostra que a literatura dele está viva e que ele é importante para as nossas letras?

– No momento político que o Brasil vive, o Lima Barreto é extremamente necessário. Ele volta para a gente nesses momentos em que a gente precisa dessa dimensão crítica da arte. Fico muito feliz com a Flip pelos lançamentos desse ano, não só o meu livro. Acho importante, porque as pessoas podem conhecer outra faceta de Lima Barreto, ler uma obra pouco conhecida, já que ela está há um bom tempo sem ter uma edição boa. A última edição de “Vida e morte” é dos anos 50, da Brasiliense. Depois disso, ficou meio escondido. Essa edição da Ateliê vem para isso, para que o público conheça uma outra obra do Lima Barreto, mas é um período que tem surgido muitas coisas bacanas, como a nova biografia do Lima Barreto, da Lilia Moritz Schwarcz, e outros estudos. Eu mesmo participo de um laboratório da Belle Époque carioca, que tem sede na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A Flip traz essa visibilidade de que Lima Barreto gostaria bastante, porque, antes de mais nada, ele sempre disse: “Eu sou um escritor”. As pessoas, às vezes, querem ver outras coisas no Lima Barreto, mas a grande luta dele foi para ser reconhecido como um escritor, como um nome das letras brasileiras.

Trecho de “Vida e morte de M.J.Gonzaga de Sá”

“Gonzaga de Sá dizia-me:
– A mais estúpida mania dos brasileiros, a mais estulta
e lorpa, é a da aristocracia. Abre aí um jornaleco, desses de
bonecos, e logo atrás dás com uns clichês muito negros…
Olha que ninguém quer ser negro no Brasil!… Dás com uns
clichês muito negros encimados pelos títulos: “Enlace Sousa
e Fernandes”, ou “Enlace Costa e Alves”. Julgas que se
trata de grandes famílias nobres? Nada disso. São doutores
arrivistas, que se casam muito naturalmente com filhas
de portugueses enriquecidos. Eles descendem de fazendeiros
arrebentados, sem nenhuma nobreza e os avós da noiva
ainda estão à rabiça do arado na velha gleba do Minho
e doidos pelo caldo de unto à tarde. Sabes bem que não tenho
superstição de raça, de cor, de sangue, de casta, de coisa
alguma. Para mim, só há indivíduos e eu, mais do que
ninguém, pois descendo dos Sás que fundaram esta minha
cidade, podia tê-las. Mas sei o que era necessário para tê-las.
Precisava, para me considerar nobre, que meus avós tivessem
obedecido a todas as regras da nobreza. Eles se casaram
em toda a parte, eles nunca se importaram com os seus forais,

agora vou eu tolamente gritar por aí, pela Rua do Ouvidor:

eu sou Sá, nobre, fidalgo, escudeiro etc., pois descendo de

Salvador de Sá etc. Isto digo eu que sou Sá!…”

“Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”

Autor: Lima Barreto

Organizador: Marcos Scheffel

Editora: Ateliê Editorial (264 páginas)

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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