Elisa Lucinda revela vozes de amor e de protesto em livro de poesia

Por Marisa Loures

11/07/2017 às 07h00 - Atualizada 11/07/2017 às 10h18

Elisa Lucinda leva para o livro “Vozes guardadas” textos gestados ao longo de 11 anos – Foto (Divulgação)

Uma voz rouca, inconfundível, do outro lado da linha. Era a atriz, cantora, jornalista e poeta Elisa Lucinda a recitar uma de suas “Vozes guardadas” (Record, 518 páginas), com o título de “Carta escrita em coração materno”. “Muitas mães em suas casas falam comigo agora./ Muitas mães falam comigo sem saber./ Esperam, como eu, seus filhos expostos, como o meu,/ a este extenso desamparo civil./ Apenas eu escrevi primeiro./ É que sou mãe do Rio de Janeiro,/ sou mãe do Brasil.”

Nesses versos selecionados para o Sala de Leitura, a poeta nos revela o tom contestador presente em boa parte de seus textos. Usando suas vozes contra as injustiças do mundo, Elisa grita, levanta-se contra discursos dominadores que pregam a exclusão. Em outros, volta-se à natureza, fazendo referência a uma infância de quintal, rodeada de mato, árvores frutíferas, barro e passarinhos. A linguagem é simples. “São vozes de amor, vozes de protesto do que há na realidade que me espanta, que indigna meu coração”, dispara a autora.

Os escritos que compõem o grosso volume de 518 páginas, composto pelas obras “Jardim das cartas” e “O livro do desejo”, foram gestados ao longo de 11 anos. Entre os textos que integram a primeira parte, estão declarações a amigos e personalidades, como Beth Carvalho, Emicida e Djavan. “Li estes versos e, mais uma vez, inebriei-me de sua poesia. Alma grandiosa, alma que canta, que chora, que ri… alma que fala dos sonhos de justiça para o mundo, alma que fala de sonhos acalentados pelo amor que está presente no sonho de todas as mulheres”, escreve, em texto de apresentação da publicação, Maria Filina Salles de Sá de Miranda, professora de Elisa, ainda na meninice, no curso de Interpretação Teatral de Poesia, em Terras Capixabas.

Multiartista, Elisa Lucinda tem 17 livros publicados, entre os quais a premiada coleção infantojuvenil “Amigo oculto”. Ela capitaneia a instituição Casa Poema e põe em prática o projeto “Vozes de liberdade”, destinado a ensinar a palavra poética a jovens que cumprem medidas socioeducativas. Não por acaso, é conhecida por estar entre os que lutam por popularizar a poesia em nosso tempo.

Marisa Loures – O que dizem essas vozes que ficaram guardadas por tanto tempo?

Elisa Lucinda – Sou uma poeta que entendo a poesia como um resultado do meu encontro com a realidade, do encontro do meu olhar com a realidade. Nesses 11 anos que não publiquei poesia, não deixei de fazê-las, porque, para mim, escrever poesia é igual a respirar. São dois livros, tanto que o livro ficou grande. Não ficou caro, mas ficou grande. Acho que é uma voz feminina, de um lugar muito livre. Falta muito, ainda, voz feminina na nossa literatura. Só no século XVIII e XIX as mulheres começaram a poder estudar. Então é tudo muito recente para a gente. Acho que esse livro é uma voz eroticamente livre, uma voz politicamente livre, gosto muito do “Vozes guardadas”. As vozes estavam guardadas querendo sair.

-Numa entrevista, você diz que é preciso mais narrativa sobre sexualidade feminina, feita por mulheres e sem medo de serem taxadas como vulgares. As mulheres, ainda hoje, têm medo de falar sobre sua sexualidade?

– Ainda tem muito preconceito para uma mulher falar assim: “Eu gosto de transar”. Não pega bem para uma mulher. E por que é que não pega bem se é da saúde humana? Só de falar, imagine escrever num livro. Todos nós gostamos de ter prazer, é da humanidade. A rigor, a princípio, todo mundo vem de um amor. Então, a humanidade não poderia ter feito o que fez, moralizar esse assunto de um jeito que tanta gente sofre por causa dele. Antigamente, uma mulher gemia e era considerada puta por seu marido. “Onde você aprendeu isso?” Ela aprendeu no instinto dela. Por isso, o assunto é muito grave. Eu, quando era mocinha, que eu soubesse, não tinha essa literatura. A gente queria, mas nem sabia que existia. Existia livro de sacanagem para os homens, mas não existia para mulheres nem a gente pensava nisso. Não nos era permitido nem pensar nisso. Lembro de Cassandra Rios. Era uma mulher que escrevia livros de pornografia, como eles chamavam, só porque era uma mulher falando de sexo. Aí ela acabava partindo para uma vulgaridade, e acabou não tendo uma literatura com alto nível de erotismo escrito por mulher. E mesmo as mulheres que escreveram romances, como Rachel de Queiroz, foram pudicas. Estou escrevendo um romance, agora, com uma pegada bem erótica. Estou adorando.

– E as mulheres estão se reconhecendo no seu livro?

– Recebo esse retorno o tempo inteiro. As mulheres me param na rua. Casais falam: “oh, esse poema seu foi nosso encontro de amor. A música da nossa vida.” É muito lindo. E as mulheres falam que se veem retratadas por mim, que eu as represento, e meninas novas, de 18 anos, falam pra mim: “Você me representa”. Acho chiquérrimo.

– Entre os textos que compõem a primeira parte do livro, há cartas declaradas a amigos e personalidades, como Beth carvalho e Emicida. O que trazem estas cartas?

– Tem poema dedicado a Ana Carolina, por exemplo, e tem um poema dedicado a uma mulher, Dalila, que lá em uma aldeia, em Moçambique, me emprestou as sandálias dela. Era camareira da pousada em que eu estava. Eu disse para ela assim: “ah, só trouxe o tênis e está um calor danado.” Eu ia passar dois dias lá. Ela falou: “calça minhas sandálias, porque estou indo embora agora, vou calçar os sapatos”. Achei aquele gesto tão lindo que dediquei a ela o um poema. Então, acho que não tem a ver com celebridade ou personalidade não. Tem a ver com amigos também, mas com todas as pessoas em que o tesouro é o afeto. Todas não, muitas, porque tem muitos poemas que fiz para outros amigos que não estão aí. Miguel Falabella e outros amigos que não são conhecidos. Tenho muitos poemas para as pessoas. Aí eu escolhi alguns, por isso cartas declaradas. Tem cartas para o Djavan, para meu médico que morreu.

– Parte das suas poesias foi escrita há mais de 11 anos, lá em 2005. Sentiu necessidade de reescrever alguns textos? Você se reconhece ali nos escritos?

– Reescrevi a maioria, porque respiro hoje diferente. Mudei bastante o que achava que não era, porque a gente vai atualizando nosso saber. A cada dia você sabe mais sobre o amor. Qualquer saber seu, você sabe mais hoje do que ontem. Sei mais da minha literatura do que há 11 anos. Aperfeiçoei, alguns poemas eu cortei. Tem poemas que eu não achava que era mais aquilo.

– Você é conhecida pelo trabalho de popularização da poesia. Vivemos num tempo em que a poesia, mais do que nunca, precisa ser popularizada?

– Apesar de muita gente nesse país popularizar a poesia, eu te digo que o mundo está muito duro, muito intolerante, e a poesia é a festa das versões. Você escreve à tarde de um jeito, escrevo de outro. Para você, chuva é dor, para mim, é alegria. A poesia é maleável, é flexível. É preciso popularizá-la, porque ela faz muito bem, ela explica o homem. Ela deve ser ensinada nas escolas, nas empresas, no trânsito, nas fachadas das lojas, para a gente respirar. Acho a poesia muito importante na formação do indivíduo e na resolução de conflitos. Na Casa Poema, a gente faz um trabalho dentro dessas ditas instituições socioeducativas com meninos que estão cumprindo medidas, que são marginais para a sociedade. A sociedade não aposta mais neles. Aliás, nunca apostou. O menino não foi para a escola, se deu mal, e ninguém cuida dele. Esse menino que, às vezes foi violentado pequeno. É uma história de exclusão. Mas, mesmo esse garoto todo embrutecido, quando a poesia chega no coração dele, ele se desmancha todo. É preciso que a gente dê mais atenção a essa arte, uma arte tão rara, tão importante.

– Elisa Lucinda é multiartista. Cantora, atriz, poeta, romancista. Qual espaço a poesia ocupa, hoje, em sua vida?

– O espaço mais infinito que trago dentro de mim é o da poesia, porque ele não descansa. Não tem um boteco que eu passe aqui, que não tenha uma senhora segurando a saia para o vento não levantar e o neném no outro braço que escape da minha poesia. Nem tudo escrevo, mas penso que podia ser poema, e isso é a base de todas as minhas artes. Faço uma novela de acordo com o texto, faço teatro de acordo com o texto. Não quero ficar falando bobagens. Agora mesmo, fui chamada para fazer um filme sobre a vida do Edir Macedo. Não quero fazer, não vou fazer, não quero ter gravada a minha voz falando coisas que não concordo. É preciso que a gente tenha essa clareza. Estou dizendo isso para mostrar que a poesia é a rainha das minhas artes.

Leia a íntegra de “Carta escrita em coração materno”

Espero meu filho amado voltar da rua.

Lindo, estudado, sábio,

impecável brasileiro em

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construção poética de boa massa.

Meu menino, meu sarará

que foi trabalhar com o cinema dele

nessa noite escura de chuva forte.

De longe eu o amparo,

meu rapaz, minha ternura, minha recompensa,

meu presente de esquecer todas as agruras,

prenda que dá melhor valência aos esforços de viver,

e oferece preciosa colheita ao ir e vir do plantar.

Espero meu filho, é noite.

Muitas mães em suas casas falam comigo agora.

Muitas mães falam comigo sem saber.

Esperam, como eu, seus filhos expostos, como o meu,

a este extenso desamparo civil.

Apenas eu escrevi primeiro.

É que sou mãe do Rio de Janeiro,

sou mãe do Brasil.”

“Vozes guardadas”

Autora: Elisa Lucinda

Editora: Record, 518 páginas

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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