Várias Júlias em uma só Pessôa

Por Marisa Loures

08/08/2017 às 07h40 - Atualizada 08/08/2017 às 07h55

Repórter da Tribuna, Júlia Pessôa reúne crônicas publicados no jornal, além de textos inéditos, em “Heteronímia” – Foto de Marcelo Ribeiro

Devo concordar com W. Del Guiducci. É “uma despudorada, essa Júlia Pessôa”. Em sua coluna semanal na Tribuna de Minas – “Antes que eu me esqueça” – nunca se esquivou de tocar em assuntos que pudessem, até mesmo, fazer latejar feridas alheias. Sempre escreveu sobre o que a toca, sobre o que a angustia e sobre o que a encanta. Dividi com ela, por um bom tempo, o dia a dia no caderno de Cultura do jornal e, ali, por muitas vezes, peguei-me às gargalhadas com suas piadas recheadas de humor ácido (E ela sabe bem disso). Também, em suas reportagens, já era possível entrever o estilo leve e despojado, uma mistura de literatura e jornalismo, que ganhariam ainda mais força em suas crônicas. Suas diversas reflexões, soltas até então e entregues à perecidade das páginas de um jornal, estão reunidas no novíssimo “Heteronímia” (Funalfa Edições, 84 páginas), cuja distribuição é gratuita.

A cada texto, mesmo que nem sempre de maneira intencional, temos uma personagem de Júlia Pessôa, ora mais subjetiva, ora mais objetiva, distribuídas nas seções “juiz-forana”, “agridoce”, “d’as meninas”, “esquerda caviar”, “antes que eu me esqueça” e “desassossegada”. E não podemos nos esquecer de que, em algumas crônicas, deparamo-nos com a Júlia Pessôa, de carne e osso, que não se esconde e não tem medo de usar a escrita para escancarar suas próprias angústias, como acontece na crônica “não é a mamãe”. Escrita em primeira pessoa, a narrativa parte de uma experiência pessoal, para refletir sobre a cobrança que a sociedade e a família impõem à mulher sobre a maternidade. A exposição não a intimida. Ela garante. Talvez, por isso, ela não se acovarde ao tocar em questões delicadas e que poderiam suscitar uma enxurrada de críticas por quem pensa diferente dela.

Em 24 de abril de 2016, Júlia escreveu texto intitulado “pela família”.  Naquelas linhas, com o Brasil já polarizado, ela discorreu sobre o impeachment da presidente Dilma Rousseff e sobre como muitos votos, hipocritamente, foram dados em nome da família, dos filhos, de Deus e até de um torturador de mulheres grávidas. “Aprendi que, ao publicar o que escreve, você precisa estar ciente de que está se expondo constantemente, e se expor é estar aberta a julgamentos que nem sempre vão ser bons. Se sou criticada, atacada, se num primeiro momento pode me magoar, procuro entender por que a pessoa está achando aquilo, se é alguma coisa em mim que preciso mudar, ou se realmente só cutuquei uma ferida alheia. De qualquer forma, mesmo quando o feedback é negativo, eu ainda prefiro isso a algo ser publicado e não causar reação alguma.”

Com o lançamento da publicação, temos a oportunidade de voltar a essas leituras, mas também de conferir novas vozes que surgem, já que, ao final, encontra-se a faceta poeta e inédita de Júlia Pessôa. Não espere, contudo, leitor, um livro totalmente distante do que Júlia Pessôa faz como repórter. Nele, a transgressão e a liberdade permitidas pela literatura estão presentes, convivendo, lado a lado, com o rigor e a apuração do jornalismo.

Marisa Loures – Na orelha do seu livro, W. Del Guiducci diz que você é uma despudorada, uma vez que não evita nem desvia de assuntos, abordando temas que ora te ferem, ora te deliciam. O que te move e a faz não ter reservas na hora de escrever?

Júlia Pessôa – Acho que é reação. Acho que, quando alguma coisa me toca de alguma maneira e que eu acho que pode tocar outras pessoas, eu quero cutucar aquela ferida. Nem sempre é uma ferida, é uma forma de expressão. Quando acho que aquele assunto pode render, não pode passar sem ser discutido mais um pouco e, às vezes, nem é uma questão de discussão, mas é algo banal do cotidiano, falo assim: “Olha que bonito aquele traço do cotidiano”. Então o que me move é o que me toca por “N” motivos, porque me inquieta, porque me encanta, porque me incomoda. Tendo a querer fazer com as pessoas também, porque acho que escrevo muito num tom de querer que as pessoas se identifiquem.

– Os seus textos  ultrapassam  as barreiras entre crônica, ensaio e reportagem. Como é esse processo? É por acaso que isso acontece, ou tem algo intencional?

– Não, meu texto me domina, ele me escraviza até. Não tenho muito processo criativo. Normalmente, funciona assim: Eu tenho uma ideia, só que, muitas vezes, não sei qual o formato que aquilo vai tomar. Às vezes, vai ser uma crônica com um personagem, às vezes, vai ser uma coisa mais crítica, em primeira pessoa, dando minha opinião, e, às vezes, pode virar um texto completamente subjetivo. Honestamente, não tenho muito controle do que aquela ideia vai virar. Sei que quero abordar aquele assunto, aquele tema, aquele estímulo, mas só sei o que o texto vai virar quando ele está escrito mesmo. Não tenho muita norma no meu processo criativo não, o que é bom, mas é um pouco angustiante também.

“Na crônica, qualquer coisa, por mais mundana que seja, ganha status de narrativa, de coisa importante, e isso me encanta muito. Qualquer pessoa pode ser um grande personagem, qualquer acontecimento pode ser um grande enredo.”

– Trabalhamos juntas no caderno de cultura da Tribuna e sempre falei que você tem uma escrita muito leve, muito solta. Você senta, e o texto vai nascendo. Seu lado cronista sempre esteve ali presente?

– Acho que sim. O que eu gosto da crônica é que ela tem uma simplicidade que, ao mesmo tempo, valoriza as coisas miúdas do cotidiano. Na crônica, qualquer coisa, por mais mundana que seja, ganha status de narrativa, de coisa importante, e isso me encanta muito. Qualquer pessoa pode ser um grande personagem, qualquer acontecimento pode ser um grande enredo. Então, de certa forma, por eu admirar muito essa construção da crônica, acho que isso acaba transparecendo para tudo que escrevo. E, no Caderno Dois, acho que minhas entrevistas eram um pouco assim. Acho que é um traço meu mesmo.

– Quando lemos seus textos, temos a impressão de que você cria vários personagens. Por isso o título do livro…

– Nem sempre é intencional não. Quis brincar um pouco com meu nome. Julia Pessôa, Fernando Pessoa, os heterônimos do Pessoa e com isso, porque ninguém é uma pessoa só o tempo inteiro. Todo mundo tem diversas facetas. E aí, relendo o material do livro, vi que dava para fazer uma divisão minha. Tanto que dividi em capítulos, tem “Juiz-forana”, “D’as meninas”, “Esquerda caviar”, “Desassossegada”… Então, falei: “Opa, isso dá uma ideia boa”. Esse não era o nome inicial do livro. Mudei depois que o projeto foi aprovado. Tive uma epifania e falei “nossa, isso vai ficar melhor”. Foi isso, de brincar com as várias facetas que a gente tem. Qualquer pessoa tem dentro de si, mas quando você escreve acho que isso é mais claro. Jornalista, escritor, na verdade, qualquer pessoa que trabalha com processo criativo, tem várias caras.

– E como é lidar com essas várias vozes dentro de você?

– É um pouco louco, mas sempre me senti muitas pessoas. Até porque é o lance de você nunca estar num lugar só inteiramente. Por exemplo, sou de Três Rios, minha família mora em Três Rios. Então, tem sempre um pedacinho de mim, do meu coração, que está lá. Sempre senti essa coisa de ser várias pessoas numa só. Não num nível “oh”, muito reflexivo, mas de ter várias características. Aí vejo que há certas posturas, profissionalmente, que posso ter como cronista, mas não posso ter como jornalista, como repórter. É você saber conviver com essas pessoas que têm dentro de uma “Pessoa”, com “P” maiúsculo, no meu caso, né? Você saber conviver com essas vozes e deixá-las existirem, cada uma no seu momento.

“Acho que não sou uma rabugenta de pesar o clima, sabe? E acho chata essa coisa que a gente vê. Talvez as redes sociais tenham um pouco a ver com isso. Todo mundo está sempre bem, feliz o tempo inteiro. Só que não está. Todo mundo tem seus dias ruins, suas coisas que despertam o mau humor. Ao invés de negar esse lado, eu abracei.”

– Em vários textos me peguei rindo ao me lembrar de você dizendo ser rabugenta. E a Marcinha Falabella fala sobre essas  “rabugices necessárias” no prefácio do seu livro…

– Tem uma coisa azedinha, né? Mas eu sou mesmo. Acho que não sou uma rabugenta de pesar o clima, sabe? E acho chata essa coisa que a gente vê. Talvez as redes sociais tenham um pouco a ver com isso. Todo mundo está sempre bem, feliz o tempo inteiro. Só que não está. Todo mundo tem seus dias ruins, suas coisas que despertam o mau humor. Ao invés de negar esse lado, eu abracei. Sou mesmo meio rabugenta, como todo mundo é. Só que levo isso mais para o tom do sarcasmo, da ironia. Sou muito debochada. E o autodeboche é uma coisa que pratico diariamente. Quem me conhece sabe que estou fazendo piada de mim o tempo inteiro.

– Você sempre escreveu matérias jornalísticas, em várias editorias, e agora também produz crônica. Como é ter essa liberdade para escrever? O jornal te dá essa liberdade?

– Sim, é fantástico. O jornal me dá total liberdade. Não me lembro de ter sido cerceada em algum tema, em alguma abordagem, mas é claro que, por eu estar num veículo que é uma instituição, tenho que ter uma linguagem adequada. Por mais que eu possa assumir uma linguagem literária mais livre, não é como se eu tivesse um blog meu, mas nunca fui censurada de qualquer maneira. Existe uma diferença de estar na posição de cronista e de estar na posição de repórter, que ainda exerço. Como repórter, nem sempre uma matéria vai me dar a liberdade para eu expressar o que acho da maneira que eu acho. Você tem que buscar certa imparcialidade, tem que deixar para o leitor interpretar aquele fato como ele é. Ouvir as diversas vozes que têm que ser ouvidas e não dá pronto para ele. É o meu papel como detentora das informações de uma forma privilegiada, que é o que o jornalista é. Agora, como cronista, tenho mais liberdade de falar: “Ah, aconteceu isso, e eu acho isso”. Claro que não dessa maneira tão simplista, mas existe uma liberdade maior.

Júlia lançou “Heteronímia” com apoio da Lei Murilo Mendes, e o livro é distribuído gratuitamente, na Funalfa- Foto de Marcelo Ribeiro

 

– Fazer uma reportagem é muito trabalhoso, mas a gente também sabe que o jornal é muito perecível. Agora que está partindo para o livro, o que a escritora Júlia Pessôa quer?

– Nossa, tantas coisas! Quero continuar produzindo. Claro que quero publicar mais, mas, mais do que qualquer coisa, quero continuar produzindo, continuar escrevendo e quero que as pessoas leiam. Quero que esse livro circule e quero receber as impressões das pessoas. Seria hipócrita eu dizer “Ah, realizei meu desejo de publicar um livro”. Não, a grande questão, o grande prazer, acho que vem agora, de as pessoas lerem, comentarem, darem um feedback. Mesmo que seja um feedback negativo. “Olha odiei seu livro.” Tá, mas ele causou alguma coisa, tocou de alguma maneira, provocou reações. Quero ver o que as pessoas estão achando, quero ver o que esse pedacinho de mim vai causar em quem tiver oportunidade de ler.

“Existe um feedback negativo que, às vezes, machuca, às vezes ofende. Mas aprendi que, ao publicar o que escreve, você precisa estar ciente de que está se expondo constantemente, e se expor é estar aberta a julgamentos que nem sempre vão ser bons. Se sou criticada, atacada, se num primeiro momento pode me magoar, procuro entender por que a pessoa está achando aquilo, se é alguma coisa em mim que preciso mudar, ou se realmente só cutuquei uma ferida alheia.”

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– Na crônica “Em família”, você se refere ao impeachment da presidente Dilma e fala sobre como os votos aconteceram em nome da família, dos filhos, de Deus e de um torturador de mulheres grávidas. Tocar em assuntos delicados como esse já te trouxe algum retorno negativo, a ponto de você dar uma resposta para o leitor?

– Não, a gente não costuma responder ao leitor, ao menos que seja uma dúvida ou, sei lá, nunca aconteceu comigo, mas uma questão que pode ser judicial. Mas já fui muito atacada. Por causa da coluna, já fui assediada, ofendida, xingada de maluca. Existe um feedback negativo que, às vezes, machuca, às vezes ofende. Mas aprendi que, ao publicar o que escreve, você precisa estar ciente de que está se expondo constantemente, e se expor é estar aberta a julgamentos que nem sempre vão ser bons. Se sou criticada, atacada, se num primeiro momento pode me magoar, procuro entender por que a pessoa está achando aquilo, se é alguma coisa em mim que preciso mudar, ou se realmente só cutuquei uma ferida alheia. De qualquer forma, mesmo quando o feedback é negativo, eu ainda prefiro isso a uma coisa ser publicada e não causar reação alguma.

– Mas já publicou algum texto como resposta?

– Teve um texto em especial que publiquei como resposta a um leitor que me assediou meio grosseiramente no meu e-mail de trabalho, falando que eu era gostosinha. Aí fiquei muito ofendida, até por eu ser cada vez mais feminista, pela invasão de o cara achar que pode chegar no meu e-mail de trabalho, nunca viu minha cara, e dizer que sou gostosa. É uma invasão do meu direito como profissional, como mulher. Escrevi uma coluna, falando sobre isso, meio que relatando o caso.

– Você sabe se ele leu sua resposta?

Leu, porque ele respondeu um e-mail, só que depois eu bloqueei. Mais do que querer dar uma resposta, isso era o de menos, era para falar sobre uma coisa que aconteceu comigo e que me invadiu de uma maneira tão profunda, que eu precisei exorcizar escrevendo. Escrever sempre foi muito terapêutico para mim. Mais do que responder o cara, foi mais para eu resolver esta questão comigo.

– Ao mesmo tempo em que há várias Júlias nos textos, há, também, a Júlia de carne e osso, como no texto “Não é a mamãe”, em que você relata o desejo da sua avó de ter um neto. Essa exposição da sua vida já te trouxe problemas familiares?

– Não. Toda minha escrita, acho que tudo o que eu faço, tem um pouco de mim mesma. Mesmo quando estou fazendo uma reportagem, que sou imparcial, não adianta, a subjetividade está nas palavras que a gente escolhe. Na crônica, muitas vezes, para eu partir para uma observação de mundo mais universal, tenho que partir de uma realidade menor. Só posso falar da minha realidade, da minha opinião. Não sei qual é a sua opinião sobre determinado assunto. Acho que falo muito sobre mim, porque é a realidade que conheço melhor. Eu me conheço melhor do que qualquer outra pessoa no mundo, então acho que é por isso que me exponho tanto. Tenho segurança para falar sobre mim, sobre meus problemas, sobre minhas vivências de uma maneira que não tenho para falar das vivências de outras pessoas. Por isso, procuro sempre partir do meu universo para, à vezes, ir para um tema mais generalista, mas nunca me causou problema não.

– O livro traz textos inéditos. Nele você se aventurou na poesia…

– Não é poesia, é uma tentativa, é um atrevimento poético. Esses não foram publicados em lugar nenhum. Era para brincar também com mais faces minhas, para o livro ter um quê que as pessoas ainda não viram.

– Hoje você é mais jornalista ou escritora?

– Varia tanto essa conta de um dia para o outro, porque, às vezes, escrevo uma crônica e vejo o quanto eu fui jornalística naquilo, eu busquei fatos para embasar a ideia que eu estava querendo defender. Tem crônica que tem uma pré-apuração, e, às vezes, vejo um texto jornalístico meu que foi tão mais livre, tão mais a partir de impressões do que de fatos. Claro, quando a pauta permite. Varia muito, essa porcentagem não é muito certa não.

 

Trecho da crônica “pela família”, de Júlia Pessôa

“Nunca se ouviu tanto falar em família como no último domingo, na votação do impeachment na Câmara. Prova do esvaziamento da discussão que se travou na Casa, que hipocritamente teimam em repetir ser “do povo”. “Pela família” se agradece em preces que antecedem as refeições e orações precursoras do sono, para quem tem religião. Também por ela devem vir os agradecimentos em convites de formatura, em cartões de Natal, em momentos difíceis em que obtivemos apoio e naqueles de celebração em que tivemos acolhimento.”

“Heteronímia”

Autora: Júlia Pessôa

Editora: Funalfa, 84 páginas

 

 

 

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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