Nasce Doli: uma personagem atrapalhada e encantadora

Por Marisa Loures

07/11/2017 às 07h00 - Atualizada 06/11/2017 às 15h12

Magda Trece acaba de Lançar “Doli não é mole”, obra em que a autora trabalha a aceitação do diferente através de uma formiguinha espevitada – Foto: divulgação

Magda Trece iniciou sua história na literatura com “O jogo das profissões” e “O livro amarelo”. Depois veio a Vó Filó, uma senhorinha que começou caçando uma maravilha aqui, outra ali, e voou bem longe. Livros, boneca, fronha, xícara e vários outros objetos com a marca dessa vovozinha nada convencional já ultrapassaram as fronteiras de Juiz de Fora. Ela é atrapalhada. Todo mundo sabe disso. A criadora dela também é, e, por isso, acaba levando essa adorável característica para suas personagens. Agora, por exemplo, ela lançou a Doli, uma formiguinha também atrapalhada e um tanto diferente das outras.

“Ela tem o encantamento pelo belo, e isso é o que me fascina nela. Esse olhar para o belo é necessário. Enquanto as outras formigas vão caminhando, vão trabalhando, ela consegue parar, girar e olhar para a beleza da vida”, derrete-se a autora que, em “Doli não é mole” (Gryphon Edições, 13 páginas), entrega-nos um texto leve e simples em meio ao colorido das ilustrações de Monise Pedrosa. O público-alvo é a criança bem pequenina.

Como essa formiguinha não é igual às outras, este livro também tinha que trilhar caminho diverso dos outros quatro títulos da escritora e contadora de histórias. O lançamento oficial aconteceu dia 28 de outubro em Mar de Espanha, terra natal de Magda, mas, antes disso, ele já tinha sido adotado por três escolas de Juiz de Fora e uma de Barbacena. Ao voltar a conversar com o Sala de Leitura, Magda Trece fala da vontade de alcançar outras instituições de ensino (atualmente, cerca de 40 colégios já usam seus livros), projeto de novo livro e busca por um trabalho cada vez mais profissional.

Marisa Loures – A Doli não é uma formiga como as outras. Ela é diferente. É preciso trabalhar o diferente com as crianças?

Magda Trece – Necessário e urgente, porque, mais do que nunca, o mundo está exigindo que a gente se prepare para as diferenças. Se a gente pode fazer isso através da literatura, do lúdico e do bonito, e não através da dor, de pessoas discriminadas pelas diferenças, então é a hora. Temos que começar desde os pequenininhos para, quando chegarem numa idade crítica, eles saberem aceitar essas diferenças de uma forma totalmente natural.

 – A Filó é uma vovó nada convencional. Ela é parecida com a Doli e com a Magda Trece.  É impressão minha ou seus personagens são exatamente como você?

– Tenho observado que, de uns tempos para cá, isso tem acontecido. Nos dois primeiros livros, “O livro amarelo” e “O jogo das profissões”, em momento algum, eu me projetei neles. Mas, a partir da Vó Filó, sinto que ponho algumas características minhas nos personagens sem sentir e, quando vejo, está lá aquela coisa atrapalhada no meio. Tem que ter isso um pouquinho, não dá para ser muito certinho. Acho que é o que busca para a normalidade, aquela coisa de sair daquilo muito perfeito, da boneca perfeita, bonita. No dia a dia, as pessoas se atrapalham mesmo, derrubam as coisas, quebram, se machucam e fazem bonitezas também. Gosto de buscar essa coisa do cotidiano nas pessoas.

Magda Trece durante contação de história do livro “Doli não é mole” – Foto: Divulgação

– Com a Doli, está ocorrendo algo diferente do que aconteceu com os outros livros seus. O lançamento não tinha acontecido ainda, e “Doli não é mole” já tinha sido adotado por quatro colégios. Como seus livros chegam às escolas?

– Ele já tinha chegado ao Granbery, ao Santos Anjos, ao Dinâmico e ao Imaculada Conceição, de Barbacena. Foi tudo muito rápido. A gente tem o contato com as escolas das outras apresentações que faço. Quando a Doli surgiu, comentamos a respeito com esses contatos mais próximos e houve um interesse muito grande de conhecê-la, porque as escolas já estavam buscando livros para o próximo ano. Eles me pediram, e não tem como você negar um negócio desse. Já estamos ganhando muitas escolas. Minha vontade agora é partir para fora de Juiz de Fora também. Acho que existe esse espaço. É difícil buscar isso lá fora, porque você tem que saber o contato certo de uma escola que é distante da sua realidade. Aqui, fica mais fácil, porque você tem o acesso de ir lá. Em outros locais, às vezes, você manda um e-mail, e a pessoa não vê. Provavelmente, vou ter que buscar uma ajuda de algum profissional que faça isso por mim. É algo que quero muito, porque tanto a Vó Filó quanto a Doli merecem voar mais longe.

– Ao escrever, você pensa que sua obra vai ser usada para auxiliar na educação de várias crianças?

– Estou escrevendo sobre a esperança, que é o próximo livro da Vó Filó. E hoje (4 de novembro) eu estava conversando com uma amiga, tentando buscar elementos para se trabalhar algo tão abstrato com crianças pequenas. É necessário que a gente busque informações com pessoas que têm esse conhecimento para que o livro possa ser utilizado na sua totalidade. Que não seja simplesmente leu e acabou. Que ele seja completamente absorvido pela criança.

Outros títulos de Magda Trece – Foto: Divulgação

– Por falar no próximo livro, a Vó Filó vai ter uma mascote. Quem é essa mascote e como vai ser o encontro entre elas?

– A mascote é a própria esperança. Aquele bichinho verdinho mesmo. Não dava para ser de outro jeito. A Vó Filó tinha que ter uma mascote diferente, não podia ser um cachorrinho ou um gatinho. O encontro é muito mágico, as duas se identificam muito e se completam. E mais uma vez a esperança é atrapalhada também. Está sendo muito difícil escrever esse livro, porque é complicado escrever para crianças pequenas sobre algo tão abstrato. Tem que tocar o coração delas de alguma forma. Também tive muita dificuldade com a Doli, porque é muito difícil escrever pouco texto com história, com conteúdo, tentando passar uma mensagem.

– Em conversa com o Sala de Leitura, o escritor Pedro Bandeira disse que, para fisgar crianças pequenas, o caminho é abusar do ritmo das palavras. Ao ler seus livros, sinto uma musicalidade nos seus textos. Esse é o segredo para conquistar seu público? Como é o processo de composição das suas histórias?

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– Acho que o Pedro Bandeira está certíssimo. Inclusive, quando eu estava preparando minha apresentação para a Doli, eu me peguei criando uma música para colocar na contação. Eu morro de rir de mim mesma. Estou tentando buscar formas de fazer com que a criança se movimente, que ela pule, que ela dance, e isso foi uma grande ajuda que tive de uma professora de maternal, a Vanessa, do colégio Santos Anjos. Devo muito a ela. Perguntei: “Como atingir crianças tão pequenininhas?” Ela falou: “Magda, muito movimento. É abaixar, levantar, girar.” Fui anotando o que ela estava falando e fiz exatamente isso com a Doli. Criei história em cima de elementos com os quais eu pudesse fazer com que essa criança brincasse, pulasse, sentisse, levantasse.

– Pedro Bandeira também é da opinião de que a criança que não tem interesse na leitura é porque ela nunca foi introduzida nesse universo. Você trabalha há muitos anos em biblioteca escolar. Como introduzir os pequenos no mundo dos livros? É possível que a criança ame ler e, em um belo dia, perca o interesse pelos livros?

– A Maria Helena Sleutjes (proprietária da Gryphon Edições) criou um projeto no Colégio Santos Anjos, na época em que ela era bibliotecária de lá, para consolidar esse leitor. São várias etapas que ele venceria até chegar num número x, e aí a leitura estaria consolidada dentro dele. É possível, sim, criar esse hábito. A partir do momento em que a criança busca pela leitura, aquilo já está dentro dela. Então, não é mais retirado. Agora, existem crianças em que a mãe pega livros aleatórios, sem saber se é a praia da criança. Cada um tem uma veia, e é essa veia que tem que ser descoberta para começar. Depois você abre o leque. Para começar, é preciso pegar aquele livro que encanta. Depois que aquilo ali já está bem forte dentro dela, aí, sim, você vai apresentar uma outra linha, entrar com suspense aqui, com romance ali. Tem que tentar descobrir o que ela gosta, e isso eu sempre faço muito na biblioteca. Mas, ainda existe gente que impõe. Aí não tem jeito, a pessoa toma horror. Vai ler aquilo, mas, com certeza, quando tiver oportunidade, vai deixar de lado.

 

Com a atrapalhada Vó Filó, Magda Trece já ultrapassou as fronteiras de Juiz de Fora – Foto: divulgação

– Acompanho a Vó Filó nas redes sociais e vejo que ela está voando alto. São produtos dela e muitas apresentações por Juiz de Fora e região. Seu trabalho está cada vez mais profissional. Você tem uma empresa que cuida disso para você?

– Durante  esta explosão da Vó Filó, tive o trabalho de consultoria para mulheres, uma equipe de meninas que me deram uma força fantástica. Elas são altamente profissionais, e isso deu uma alavanca bem grande. Agora, estou com a Paula Lazzarini, que é minha representante nas escolas. Você tem os livros nas mãos, e agora? O que você faz? Você precisa levar esses livros para a escola, e não é o autor que leva. Isso é uma grande dificuldade. Então você vai buscando todas as formas possíveis para melhorar seu trabalho. Acho que isto é o profissionalismo: buscar outros profissionais que possam te ajudar a seguir seu caminho de uma forma mais bonita. Tenho tentado isso. Nas minhas apresentações, tenho buscado sempre coisas que fiquem mais bonitas. Não é mais você simplesmente sentar e contar histórias, porque as pessoas estão sempre querendo um pouco mais. A cada apresentação que faço, as pessoas falam: “nossa essa ficou melhor do que a outra”. E essa expectativa faz com que você busque cada vez mais e mais.

Sala de Leitura

Sexta-feira, às 10h05, na Rádio CBN Juiz de Fora (AM 1010)

“Doli não é mole”

Autora: Magda Trece

Ilustradora: Monise Pedrosa

Editora (Gryphon, 13 páginas)

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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