A publisher Flávia Iriarte conversa sobre mercado editorial, escrita criativa e “Tabu”

Por Marisa Loures

05/09/2017 às 12:09hs - Atualizada 05/09/2017 às 12:11hs

A publisher e editora Flávia Iriarte é organizadora do livro “Tabu” e criadora do Carreira Literária, comunidade on-line voltada para escritores

O encontro era on-line. Os participantes eram escritores de todas as partes do Brasil, inclusive de Juiz de Fora. Por aqui, era a jornalista Táscia Souza quem batia ponto no Curso de Escrita Criativa do Carreira Literária. As reuniões aconteciam toda quarta e quinta-feira de outubro de 2016, e o debate girava em torno das produções literárias daqueles autores. O desafio deles era desenvolver, ao longo do mês, um romance ou coletânea de contos. No laboratório final, depois de um exercício com o texto “O livro dos recordes”, que tem como narrador-personagem um pai impedido pela justiça de ver sua filha de 15 anos, com quem fora visto num tórrido beijo de língua, surgiu o mote do projeto que deu origem ao novíssimo livro “Tabu” (Oito e Meio, 218 páginas).

Organizada por Flávia Iriarte, editora, publisher e fundadora da editora Oito e Meio, a obra traz 38 contos. “Um psicopata necrófilo, uma família com o estanho hábito de comer o coração dos seus mortos; uma mulher que, inspirada por Leila Diniz, decide fazer um topless na praia e é conduzida a um interrogatório que beira o surreal; um homem que, doente terminal, tem o direito de decidir sobre manter ou não a própria vida negado pelo Estado; uma menina que, todas as noites, conta as estrelas em seu quarto, enquanto precisa aceitar a mais dura das partidas; outra que, desde cedo, descobre que os silêncios muitas vezes guardam nomes difíceis de pronunciar. Câncer. Incesto. Suicídio. Morte. Eis um pouco do que o leitor poderá encontrar aqui”, escreve Flávia em texto do livro.
No Sala de Leitura de hoje, a publisher fala não só sobre a coletânea, mas também sobre o cenário editorial independente, termo que ela abomina, e sobre a Carreira Literária, comunidade on-line, cujo objetivo é auxiliar escritores do Brasil inteiro em suas trajetórias rumo à publicação de suas obras. Ela também conta se é possível conquistar um estilo literário. “Tabu” pode ser adquirido em www.carreiraliteraria.com.

Marisa Loures – Em uma entrevista para o programa Trilha de Letras, da TV Brasil, você disse que tem certa implicância com o termo Editora Independente. O que significa ser independente no circuito editorial contemporâneo?

Flávia Iriarte – Como eu disse no programa, não acredito no termo Editora Independente. Contesto se existe essa possibilidade de independência. Você é independente de quê? A partir do momento em que você é uma empresa que está inserida no mercado, você precisa ter uma receita para pagar seus funcionários, pagar seu estabelecimento e ter seu lucro que te permita sobreviver. Isso sempre vai depender de uma demanda para você vender seus livros. Independente de essa demanda ser de 500 exemplares, como costuma ser a tiragem das editoras pequenas, ou de 10 mil, 30 mil, 100 mil exemplares, como nas editoras grandes, você sempre depende de alguma coisa, depende de um modelo de negócio que viabilize. Acredito que “independente” não seja o termo correto. Acredito que você possa ser possível. As editoras pequenas são possíveis através de modelos de negócios alternativos, que é o que a gente faz, por exemplo, na Oito e Meio.

– A Oito e Meio é referência na publicação de gêneros menos destacados pelo mercado editorial tradicional. Esse foi um caminho que vocês percorreram conscientemente, ou o mercado foi exigindo isso, e vocês foram indo nessa direção?

– Desde o início, a proposta era essa, justamente, porque era a lacuna que a gente identificava no mercado editorial. As editoras grandes costumam privilegiar a não ficção e, dentro da ficção, o romance, que é aquele formato que é mais facilmente absorvido, que elas conseguem negociar dentro das feiras internacionais e vender os livros. Então, a gente foi percebendo que os escritores de poesias, novelas e contos não eram contemplados pelo mercado das grandes editoras. A Oito e meio surgiu um pouco nesse contexto, junto com outras editoras, naturalmente, como a 7Letras e a Patuá, que também atuam nesse nicho.

– Como é feita a distribuição dos livros da Oito e Meio?

– Da mesma maneira que a nossa produção é, digamos assim, alternativa, diferente dos modelos das grandes editoras, a distribuição também é. A gente não foca nesse circuito das grandes livrarias. Por exemplo, aqui no Rio, a gente tem uma distribuição focada em algumas livrarias parceiras nossas, como a Travessa, mas a gente aposta principalmente, na venda através do nosso e-commerce e em feiras e eventos literários, em que a gente possa vender direto para o consumidor. A verdade é que, para a realidade de uma editora pequena, a colocação de um livro na livraria em baixas tiragens acaba inviabilizando o negócio, porque o percentual de desconto é muito alto. Por isso a gente precisa explorar os circuitos alternativos.

– Como surgiu o projeto Carreira Literária e como ele funciona?

– O Carreira Literária surgiu a partir da minha experiência com a Oito e Meio. Diariamente, recebo muitos originais de escritores do Brasil todo, e eu percebia certa inexperiência desses escritores na hora de abordar a gente. Certa ingenuidade com relação a como funcionava o mercado editorial. Conversando com meus amigos, verificava que se repetia também com outras editoras. A partir daí surgiu a ideia de formar essa comunidade voltada para escritores. É uma comunidade on-line, qualquer um pode se inscrever. Basta digitar no Google Carreira Literária, se inscrever e você passa a receber nosso mailing. Nesse mailing, a gente dá dicas, palestras on-line, cursos, treinamentos, justamente, voltados para a inserção do autor dentro do mercado editorial e também para a escrita criativa.

– E é possível criar um estilo literário?

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– É muito possível. É possível explorar qualquer coisa dentro da criação literária. A gente vive um pouco uma herança de uma mentalidade romântica que associava o escritor e a escrita à genialidade, à inspiração, mas a escrita é uma atividade como qualquer outra. Ela é passível de ser desenvolvida se você, em primeiro lugar, ler muito e conseguir aprender os recursos que os grandes escritores usaram para produzir suas narrativas e também exercitar técnicas de escrita, como acontece com qualquer outra arte, como a música, a pintura. É muito mais fácil a gente aceitar que existem recursos, técnica que você precisa aprender para ser um músico e um artista plástico, do que para ser escritor, mas é exatamente a mesma coisa. Existem ferramentas, que, se você não passar por elas, não aprendê-las, você não vai conseguir produzir um bom texto literário. No Carreira Literária, a gente frisa muito esse aspecto racional também da construção do texto.

– E desse curso já saíram nomes que estão hoje no mercado?

– Com certeza. Inclusive, muitos dos escritores que a gente publicou nos últimos dois anos na Oito e Meio vieram do Carreira Literário, porque ele tem se tornado um espaço privilegiado para prospectar autores. Atualmente, são mais de 30 mil escritores no Brasil inteiro. Como dou esses cursos de escrita criativa, estou em contato com a escrita de muitos desses autores. Aqueles que eu acho que se identificam com a linha editorial da Oito e Meio, encaminho para ela.

A jornalista Táscia Souza está entre os autores da coletânea de contos “Tabu”, fruto do Curso de Escrita Criativa do Carreira Literária – Foto de Gustavo Burla (Divulgação)

– O livro “Tabu”, que tem uma juiz-forana entre os autores, é fruto do Curso de Escrita Criativa. Qual a proposta da publicação?

– O “Tabu” surgiu a partir da segunda turma de escrita criativa e foi a primeira em que eu implementei a ideia de um laboratório. A primeira versão do curso eram só aulas em que as pessoas assistiam dentro de uma plataforma on-line, mas fiquei sentindo que os alunos sentiram falta de ter uma parte prática, em que a gente pudesse interagir, dar um retorno sobre os textos deles. Aí aconteceu essa turma, da qual a Táscia faz parte. Aliás, ela é uma excelente escritora. E, ao final dos trabalhos, a química foi tão positiva, que propus a eles que a gente organizasse uma coletânea para publicar. Como um dos temas do exercício que tínhamos feito era tabu, pois era um conto sobre incesto, então o tema acabou mexendo com o pessoal, e eles propuseram que fosse o tema da coletânea. São 38 contos, versando sobre os mais diferentes tabus.

– Outro dia li uma entrevista do Eduardo Lacerda, da Patuá, em que ele dizia se considerar mais editor de livros que poeta, apesar de ter livro publicado. Essa também é a sua situação?

– Tenho um livro de contos publicado, lancei esse livro há uns quatro ou cinco anos, tenho uma carreira de escritora também, mas que, por enquanto, acaba ficando meio de lado por conta do excesso de demanda que tenho dentro da editora e do Carreira Literária. Passo a maior parte do meu tempo fazendo isso. Como é que vou dizer que sou escritora, se só consigo sentar para escrever uma vez por semana e olhe lá, né? Então, sou uma escritora em potencial, mas ainda não exercitando o ofício.

– Você acaba exercitando seu lado escritora lendo os textos dos outros autores…

– Isso é verdade. Por isso que acho que, quando sento para escrever, não saem coisas totalmente absurdas, de todo ruim, justamente, por conta dessa experiência de leitura, que é uma experiência autoral também.

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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